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A maldição de uma seleção
Desde que o Brasil perdeu para a França na final da Copa do Mundo de 98, nossa seleção nunca mais foi a mesma. Antes daquela partida, o pire-paque que Ronaldinho sofreu na concentração, já previa que os dias seguintes seriam horríveis. O time entrou em campo assustado, chocado com o que havia ocorrido e preocupado por ver o mesmo Ronaldo (supostamente pressionado para entrar em campo), comandando o ataque. Ataque que, alias, não funcionou. A França com grande competência, deu um show de eficiência e liquidou o Brasil vencendo por 3 a 0. As ruas de Paris ficaram tomadas por torcedores que pela primeira vez, viram sua seleção ser campeã do Mundo.
Daí para frente, a seleção só afundou. O velho lobo, único ser tetra-campeão no mundo, deixou a CBF (Confederação Brasileira de Fiascos) quase ao mesmo tempo em que, Simeone, volante argentino, quebrava Ronaldinho na Itália, o que deixaria o fenômeno sem jogar por quase dois anos. O até então (e atual) melhor técnico do Brasil, Wanderley Luxemburgo, assumiu a equipe com a aprovação geral da nação. Por um período, o novo técnico conciliou seu trabalho no Corinthians e na seleção brasileira. A primeira missão, antes de se pensar na próxima Copa, era levar a seleção ao título inédito de uma Olimpíada. O Brasil teve um bom desempenho no Pré-Olímpico e se classificou para Sidney juntamente com o Chile.
No começo das Eliminatórias da Copa de 2002, a seleção apresentava um futebolzinho arroz com feijão e colecionava empates e derrotas nada comuns. Wanderley insistia em suas experiências com vários jogadores e mantinha sua idéia de não levar Romário, sempre em grande fase, aos Jogos Olímpicos. Teimosia que lhe rendeu o apelido de Luxemburro, criado pelos mais maldosos. Só que Luxemburgo, talvez por não conhecer uma das Leis de Murphy que diz que "Acontecimentos infelizes sempre ocorrem em série", não contava com o que viria pela frente. O Brasil foi para a Austrália. Aos trancos e barrancos chegou nas semifinais da competição e perdeu para Camarões (com 2 jogadores a menos), no Golden Gol.. Ao mesmo tempo, Renata Alves, ex-secretária do técnico, denunciava no Brasil os escândalos de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, sonegação fiscal e tráfico de influência de Wanderley Luxemburgo. O mesmo profissional que meses antes era aprovado pelo país inteiro, se tornava o maior vilão do futebol brasileiro.
Candinho, assistente técnico de Luxemburgo na época, permaneceu na equipe por um ou dois jogos e logo pediu demissão em lealdade ao companheiro. Antônio Lopes assumiu cargo de confiança como Coordenador Técnico e teve carta branca para escolher Émerson Leão como felizardo para o posto de treinador. Leão percebeu a difícil tarefa que teria logo na sua estréia, ao ver o Brasil vencer a Colômbia com um gol aos 47 do 2º tempo no Morumbi. Daí para frente, quase nada mudou. Leão trazia jogadores do exterior, deixava só brasileiros, voltava com os estrangeiros, e nada se resolvia.
Depois de perder para o Equador pela primeira vez na história e empatar com o Peru em São Paulo, veio o que segundo a CBF, seria uma competiçãozinha de nada, só para fazer testes. A Copa das Confederações, uma prévia da Copa do Mundo disputada no Japão e na Coréia, trouxe a certeza de que o barco afundava cada vez mais. Na primeira fase, o Brasil se vingou de Camarões vencendo por 2 a 0, empatou em 0 a 0 com o CANADÁ, que está sem chances de ir à Copa e empatou com o TIME MISTO do Japão, também em 0 a 0. Todos já demonstravam sinais de preocupação, mas havia esperança de que contra a França, próxima adversária, o time revivesse o espírito de Copa do Mundo e se vingasse daquela final. Mas o Brasil tomou um sufoco danado dos franceses. Tirando o belíssimo gol de Ramón, numa cobrança de falta no ângulo, nada mais teve salvação. Perdemos por 2 a 1, e se o árbitro não terminasse logo o jogo, não sei o que poderia acontecer. Claro que em relação ao último confronto das duas seleções, tivemos um grande avanço, pois pelo menos não perdemos de goleada. A França, 1ª colocada no Ranking da FIFA, se sagrou campeã da Copa das Confederações com uma vitória sobre os anfitriões japoneses, conquistando seu terceiro título consecutivo. O Brasil disputou o 3º lugar com a Austrália (sem 5 titulares) e PERDEU por 1 a 0. Tá certo que a Austrália ganhou de 20 ou 30 a 0 de timinhos por suas bandas, mas vencer o Brasil sem 5 titulares, já é um exagero, um descaso, uma falta de respeito. Leão disse que não se sentia envergonhado pois o time teve muitas chances no jogo que não soube concluir.
A derrota para a Austrália foi a gota d'água. Em meio a especulações de que seria substituído e contando com a promessa anterior da CBF, Leão agia normalmente do outro lado do mundo, já pensando no jogo contra o Uruguai. Porém, a notícia de sua saída já corria há muito no Brasil. Leão recebeu a notícia de sua demissão por Antônio Lopes, quando embarcava no aeroporto para voltar ao país. O próprio técnico, traído pela CBF, anunciou sua saída aos jogadores do grupo, durante o vôo. Ao chegar no Brasil, Leão disse que sabe de muitas coisas sobre a entidade e que logo após conversar com o presidente Ricardo Teixeira, (que teve a cara livrada na CPI da Nike por dirigentes/deputados tão ou mais asquerosos que ele), irá revelar os detalhes.
Mais uma vez, com aprovação geral da nação, outro técnico assume o comando da seleção brasileira. Luis Felipe Scolari, o Felipão, já provou sua competência em passagens pelo Grêmio, Palmeiras e Cruzeiro. Ele é a cara do futebol vencedor, inteligente e brigador da América do Sul. Coincidência ou não, poucas semanas após ser eliminado da Taça Libertadores da América, assume a responsabilidade que havia recusado em outra oportunidade, prometendo recuperar o prestígio que o time perdeu nos últimos anos. Faltando um ano para a Copa do Mundo, não há uma base, não há uma seleção brasileira, nem temos certeza se iremos nos classificar. O país espera que a "Era Felipão" recupere o verdadeiro futebol, presente na memória de cada torcedor, porém esquecido e prejudicado por interesses políticos e financeiros de inescrupulosos dirigentes brasileiros.
Lucas Soares
daemon@netlove.com.br
De onde veio esta página. Do arquivo netsim/colunista-lucas-4.html, recuperado das capturas do Internet Archive. O texto acima é o mesmo, palavra por palavra: só a tipografia mudou.