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O caso de amor e ódio que
envolve o Presidente Fernando Henrique Cardoso e o Governador de Minas Gerais,
Itamar Franco, é no mínimo curioso. Não é novidade para ninguém que em política,
o que importa é o momento, é quem está do seu lado naquela situação. O
grande e fiel amigo de hoje pode se tornar o pior e mais perigoso inimigo de
amanhã.
Durante as eleições presidenciais de 1989, o até então Senador da República,
Itamar Franco, se uniu ao todo promissor candidato do PRN, Fernando Collor de
Melo. O jovem candidato Collorido, de olho no 2º maior colégio eleitoral do País
com míseros 10 milhões de votos, viu na parceria uma grande oportunidade de
agradar o Estado que poderia lhe levar ao triunfo. Como sabemos, Collor chegou
à Presidência da República com grande ajuda de Minas. Mas Itamar Franco foi
recompensado por emprestar seu prestígio. Dois anos depois, já descontente com
a atuação de quem apoiara, herdou a Presidência da República após a
descoberta dos esquemas de corrupção que envolviam o Governo.
Mais dois anos se passaram e o Itamar do pão de queijo, do contato com a modelo
sem peças íntimas, do enorme topete, entre outras coisas, deixou a presidência
com um dos maiores índices de aprovação já registrados na história. Ficou
conhecido principalmente como o Presidente que relançou o velho fusca. Ainda em
seu governo, Itamar Franco começou uma relação de confiança e lealdade que
mais uma vez viraria do avesso anos mais tarde. Fernando Henrique Cardoso, até
então senador, Ministro das Relações Exteriores, sociólogo, intelectual e
desconhecido da população brasileira, assumia o Ministério da Fazenda que
estava com a credibilidade nula. Mais do que Itamar, FHC foi responsável pelo
lançamento de uma moeda "forte" que diminuiu o índice de inflação
e o levou à Presidência da República. Começava aí um período de quase 10
anos com altos e baixos (mais baixos do que altos) de um governante que entrou
por cima e agora sai lá embaixo.
Mas voltando a Itamar Franco, quando terminou seu governo, ficou à mercê das
críticas e farpas disparadas pela oposição e até pelos novos governantes,
que o levou a se revoltar e atuar daí para frente na contramão do país.
Depois que assumiu o governo de Minas Gerais, Itamar lançou sua primeira grande
polêmica ao decretar a moratória, alegando que o Estado não tinha dinheiro
para cumprir suas obrigações. Foi um choque enorme para a economia. Bolsas
caindo e subindo para todo lado em virtude da decisão do Governador. A simples
decisão de aplicar o calote porque não tinha dinheiro, abalou a estrutura da
economia e mostrou ao Governo que ele teria sérios problemas.
Algum tempo depois, Itamar determinou que tropas da PM fizessem manobras
militares próximo à represa de Furnas, em repreensão às ameaças de
privatização da estatal. Protestou quando o Presidente Fernando Henrique
Cardoso deslocou tropas do exército para a proteção de sua fazenda, em
Buritis, ameaçada de ser invadida por militantes do (MST), Movimento Sem Terra.
Com a chegada da crise energética, Itamar não se conteve. De olho na corrida
presidencial do ano que vem, rebateu as acusações do próprio presidente de
ser um dos responsáveis pela falta de investimento no setor. Revoltado, sugeriu
um debate sobre a questão energética e como já era esperado, não recebeu
atenção.
Em resposta às metas do racionamento de energia divulgadas pelo governo, Itamar
foi conciso: "Em Minas, ninguém paga sobretaxa". Talvez para a decepção
do líder mineiro, a decisão não teve tanta repercussão como no episódio da
"Moratória" e ainda o obrigou a esclarecer depois que sua intenção
não era desestimular os mineiros a economizar energia. Pelo que parece, a intenção
era sim comprar nova briga com o governo e causar mais confusão ainda. Confusão
que se inicia com o povo, tendo que pagar mais uma vez por algo que não é
culpado. Depois com a falta de organização de uma tal Comissão de Gestão,
que não tem a firmeza necessária para sustentar metas anunciadas nas Medidas
Provisórias. Nestes três meses de crise, o governo divulgou, reavaliou e
revogou a maior parte das decisões que tomou sobre a maior crise energética de
todos os tempos.
Bem ou mal, Itamar Franco, é nome forte para a sucessão presidencial de 2002.
Tem Minas inteira na sua retaguarda e ainda pode se beneficiar por ser o único
no poder que desafia o Chefe Maior da nação. As últimas eleições mostraram
que há uma tendência esquerdista e de mudança no cenário político. O
partido de Itamar (PMDB) já anunciou que não irá mais apoiar o governo e sim
lançar candidatura própria. Em pesquisa não-oficial realizada pelo IBGE no
fim de maio, Itamar aparece em 3º lugar na corrida presidencial com 15% da
preferência dos votos, atrás apenas de Lula(30%) e Ciro Gomes(19%). Para
melhorar ainda mais a situação, parece que o feitiço do presidente está
virando contra o feiticeiro. FHC, que no início teve o suporte de Itamar para
depois governar por 8 anos, parece agora devolver a gentileza, ao beneficiar o
adversário com suas trapalhadas governamentais e obter um dos piores índices
de satisfação popular já registrados no país.
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