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É assim. Uma folha em branco. Na verdade, uma tela em branco. Sei que poucos chegarão ao final deste texto.(E isto eu acrescento depois de já tê-lo terminado. Se você ousar ler até o fim, você entenderá. Talvez goste, mas acho que não. Melhor deixar a vida como está. Continuar no faz-de-conta.
Não faz muito tempo que é assim. A tela do computador transformou-se no centro do mundo. Um quadrado de algumas polegadas onde se concentra a essência do que se tornou a vida na Terra. Rompemos todas as distâncias. Estamos a um clique do Japão. A um clique do Nepal, onde há poucos dias um louco-filho-do-Rei matou a sua própria família real. Em casa ou no trabalho estamos cercados por todo tipo de jeringonça eletrônica.
Celular: a melhor forma que encontraram para acabar com a nossa privacidade. Pra conversar com os amigos usamos os programas de bate-papo, pois é mais fácil dizer o que pensamos quando não estamos frente a frente. Pra fazer compras, utilizamo-nos das lojas virtuais, onde podemos ver a fotografia colorida daquilo que desejamos adquirir, às vezes em imagens tridimensionais. Não precisamos mais falar com o vendedor. Ir ao Banco? Também já não precisamos. Podemos fazer tudo de casa mesmo.Jogar um futebolzinho nas manhãs de domingo? Pra quê? Usamos o vídeo gueime, onde podemos ser qualquer jogador de qualquer clube ou Seleção do mundo. Ler um livro? Nada disso. Hoje chama-se livro eletrônico. Na tela do computador, com recursos multimídia de toda espécie, menos a possibilidade de se folhear, de sentir o cheiro do papel. Pesquisa escolar? É só digitar uma palavra-chave que aparecem milhares de páginas onde podemos copiar e depois colar e pronto: trabalho realizado. Da melhor qualidade.
A vida hoje tornou-se muito fácil. Não precisamos fazer muito esforço. Aliás, nem devemos. Se desejamos escrever uma coluna de jornal, temos que ser breves. Brevíssimos. Dizem que o leitor é um sujeito extremamente cansado. Ele quer tudo assim bem digerível. Frases curtas. Palavras simples. Idéias conformistas. Nada de radicalismos e rebeldias. Hoje ninguém quer assumir posições. Cada um fica na sua. Nada de dar opiniões, fazer críticas ou comentários. A melhor coisa é ficar em cima do muro. Nem sei como cabe tanta gente em cima desse muro. Nossa vida hoje é controlada pelos computadores, cada vez mais avançados, cada vez mais cobiçados. Tudo para facilitar a nossa vida.
Tudo para termos mais tempo.
"Mas tempo é o que menos temos hoje, pai. É um paradoxo indecifrável para a mente humana, eu sei. Tudo se tornou mais fácil. E pra onde está indo o nosso tempo? Os relógios sempre funcionaram dessa forma, dividindo dias e noites em horas e minutos. Mas por que agora parece diferente? Não temos mais tempo para a família, porque trabalhamos muito. No trabalho, não damos conta do serviço porque nossa jornada é pequena e as tarefas são enormes. Na escola, ensinam-nos metade do conteúdo porque o tempo é curto pra cumprir todo o programa. Os fins-de-semana passam voando. Dormimos até meio-dia e deitamos às oito da noite, pois estamos muito cansados. Por que corremos tanto? Por que queremos fazer tanto?
Um dia seremos velhos. E quando velhos sentaremos um dia qualquer, ao entardecer, e recordaremos nossa vida inteira. Veremos o quanto vivemos errado, querendo ser tudo ao mesmo tempo, querendo fazer tudo, ganhar tudo, ser melhor em tudo, alcançar sempre o primeiro lugar. Um dia seremos velhos. E teremos saudades da juventude. Vamos desejar viver tudo de novo. Vamos desejar ser crianças outra vez. Vamos querer não entender tudo o que acontece. Vamos querer nos despir das máscaras que usamos a vida inteira. Vamos querer não levar a vida tão a sério. Vamos pensar mais em nós mesmos. Vamos descobrir que a vida é muito curta pra toda essa correria. Um dia seremos velhos. E nesse dia nós vamos conseguir parar o tempo. Teremos tempo para ver que o sol ainda brilha. Que as noites ainda têm estrelas belíssimas. Que a natureza ainda é de rara beleza. Teremos tempo de notar como as crianças são alegres. E que perdemos essa alegria quando deixamos de ser crianças. Teremos tempo para contar histórias. Pra dizer um oi para um estranho que passa na calçada do outro lado da rua. Pra dizer obrigado quando alguém segurar-nos porque já estaremos com os passos muito fracos. Teremos tempo pra ficar longes dos computadores e perto dos amigos e da família. Mais perto de Deus. Porque estaremos pertos de nós mesmos. Teremos tempo para andar a pé. Descalços. Pela segunda vez na vida, seremos nós mesmos, sem disfarces, sem máscaras, pois já não precisaremos provar nada para ninguém.Como éramos quando crianças. Teremos tempo para tudo o que não tivemos a vida toda. Mas será um tempo escasso. Será um tempo de lembrar. Será um tempo do qual não teremos tempo de lembrar. Desejaremos ser fortes de novo, mas não poderemos.
E esse tempo não está tão longe. Sei que podemos pensar nisso agora. Sei que hoje ainda não é amanhã. Hoje está aqui. Agora. Eu sei que posso viver. Viver de verdade. Sorrir de verdade. Ter amigos de verdade. Ser feliz de verdade.
Eu sei que posso, pai. Só não sei se tenho coragem."
__ Não chore assim, Catarina. Não chore.
Por Otávio de Barros otaviodebarros@netlove.com.br
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