A casa era modesta. Fora construída junto à linha férrea, nos arrabaldes da cidade. No quintal, uma velha e frondosa árvore vira cada filho crescer. Servira de abrigo para a família. À sua sombra, todos descansavam. E quem passava, de trem, mesmo que não quisesse, notaria a presença majestosa daquela árvore. Certo dia, um dos filhos, o mais velho, resolveu sair de casa. Queria conhecer o mundo, se ver livre da autoridade patena. Comunicou a decisão e, embora recebendo ponderações em contrário, em especial de sua mãe, partiu para a cidade grande, onde, pensava, viveria melhor, arranjaria emprego, namoraria, casaria, alcançaria sucesso... seria feliz.
Chegando ao destino escolhido, resolveu experimentar de tudo. Afinal, desejava aproveitar a vida, viver intensamente. Realmente, atingiu o seu objetivo. Ou pensava que o fazia. Passou noites em claro, bebeu, fumou e até experimentou drogas. Era um "barato". Quando percebeu já estava viciado em "pico".
O uso indiscriminado de agulhas e seringas, sem nenhum cuidado com a higiene, logo produziu os inevitáveis resultados. Começou a enfraquecer-se... estava doente...
O médico, após rigorosos exames, muito cauteloso, diagnosticou: Aids. A situação do jovem piorava a cada dia. Já não tinha onde ficar. Nem mesmo seus amigos de vício podiam ajudá-lo. Até porque muitos deles também estavam doentes... Ele precisava, urgentemente, de amparo. Mas, para onde ir ?
Não podia voltar para casa de seus pais. Desde que de lá saíra, e já eram decorridos seis anos, nunca mais voltara. Nem mesmo escrevera para os seus pais.. Nada sabia sobre sua família. A situação estava cada vez mais grave. Assim, não lhe restava outra alternativa. Tinha que voltar para casa. Uma interrogação, no entanto, vagava seu espírito. Seria recebido ? Apesar de tudo, resolveu voltar, mas não sem antes remeter um telegrama para seus pais :
"Estou voltando. Muito doente. Podendo receber-me, ponham um lenço branco na árvore".
À medida que o trem deslizava sobre os trilhos, o coração do jovem ficava mais apreensivo. Dúvidas assaltavam a sua mente. Se não mais existisse a árvore ? Se o telegrama não tivesse chegado ? Se seus pais não quisessem recebê-lo ?
Tomou uma decisão : caso não haja nenhum lenço na árvore, não desço na estação, passo direto... e me atiro do trem em movimento, logo depois, pondo fim à vida.
Agora só faltava mais uma curva e depois dela poderia ver sua velha casa... o quintal... a árvore. Quase não podia respirar. Colocou a cabeça para o lado de fora do vagão e, então, viu a árvore... e nela não havia o esperado lenço branco...
Não havia lenço... mas sim um grande lençol branco, Ninguém deixaria de enxergá-lo.
Era uma linda mensagem de amor. Um grande lençol branco... Assim são os pais. |