Estávamos fazendo hora para ir pra nossa aula de agogô, ouvindo o Concerto em ré maior Opus 77, de Johannes Brahms, executado por Fritz Kreisler com a Orquestra da Ópera de Berlim, sob a direção do maestro Leo Blech (queiram perdoar), quando surgiu em nossa modesta mansão conhecida dama do mundanismo (e aqui somos obrigados a abrir mais um parêntese para pedir encarecidamente a vocês que não confundam dama do mundanismo com mundana simples, pois, embora seus processos sejam semelhantes, há uma diferença sutil entre elas).
Onde estávamos mesmo? Ah, sim... com a dama do mundanismo. Ela chegou e começou a conversar muito animada e nós, na impossibilidade de desligá-la, desligamos Johannes Brahms, ficamos a escutá-la. Vanja vai, Vanja vem, o assunto passou a ser imprensa. A elegante senhora é com o perdão da palavra tarada por noticiário policial. Quis saber se já fomos repórter policial, coisa que confirmamos com um leve rubor a assomar na face, como são escolhidas as notícias sangrentas da imprensa idem, quais os cobras dessa imprensa e outros blablablás.
Da conversa que tivemos acho interessante passar aos distintos leitores, que me honram com a sua preferência, alguns aspectos da história desses jornais que são impressos com sangue e onde abundam os repórteres amásios do escândalo. E, se dizemos amásios e não amantes, é para estar ao gosto deles.
O repórter policial, tal como o locutor esportivo, é um camarada que fala uma língua especial, imposta pela contingência: quanto mais cocoroca, melhor. Assim como o locutor esportivo jamais chamou nada pelo nome comum, assim tambem o repórter policial é um entortado literário. Nessa classe, os que se prezam nunca chamariam um hospital de hospital. De jeito nenhum. É nosocômio. Nunca, em tempo algum, qualquer vítima de atropelamento, tentativa de morte, conflito, briga ou simples indisposição intestinal foi parar num hospital. Só vai pra nosocômio.
E assim sucessivamente. Qualquer cidadão que vai à policia prestar declarações que possam ajudá-la numa diligência (apelido que eles puseram no ato de investigar), é logo apelidado de testemunha-chave. Suspeito é "Mister X", advogado é causídico, soldado é militar, marinheiro é naval, copeira é doméstica e, conforme esteja deitada a vítima de um crime de costas ou de barriga pra baixo fica numa destas duas incômodas posições: decúbito dorsal ou decúbito ventral.
Num crime descrito pela imprensa sangrenta a vítima nunca se vestiu. A vítima trajava. Todo mundo se veste, tirante a Luz del Fuego, mas basta virar vítima de crime, que a rapaziada sadia ignora o verbo comum e mete lá: "A vítima trajava terno azul e gravata do mesmo tom". Eis, portanto, que é preciso estar acostumado ao métier para morar no noticiário policial. Como os locutores esportivos, a Delegacia do Imposto de Renda, os guardas de trânsito, as mulheres dos outros, os repórteres policiais nasceram para complicar a vida da gente. Se um porco morde a perna de um caixeiro de uma dessas casas da banha, por exemplo, é batata... a manchete no dia seguinte tá lá: "Suíno atacou comerciário.
Outro detalhezinho interessante: se a vítima de uma agressão morre, tá legal, mas se ao contrário em vez de morrer fica estendida no asfalto, está indefectivelmente prostrada.
Podia estar caída, derrubada ou mesmo derribada, mas um repórter de crime não vai trair a classe assim à toa. E castiga na página: "Naval prostrou desafeto com certeira facada." Desafeto para os que são novos na turma devemos explicar que é inimigo, adversário, etc. E mais: se morre na hora, tá certo; do contrário, morrerá invariavelmente ao dar entrada na sala de operações.
De como vive a imprensa sangrenta, é fácil explicar. Vive da desgraça alheia, em fotos ampliadas. Um repórter de polícia, quando está sem notícia, fica na redação, telefonando pras delegacias distritais ou para os hospitais, perdão, para os nosocômios, onde sempre tem um cumpincha de plantão. O cumpincha atende lá, e ele fala: "Alô, é do Quinto? Fala Fulano. Alguma novidade? O quê? Estupro? Oba! Vou já para aí". Ou então é pro pronto-socorro: Alô. É Fulano, da Luta. Sim. Atropelamento? Ah... mas sem fratura exposta não interessa".
E há também a concorrência entre os coleguinhas da crônica sangrenta. Primo Altamirando, quando trabalhou nesse setor, se fez notar pela sua indiscutível capacidade profissional para o posto. Um dia, ele telefonou para o secretário do jornal:
Alô, quem está falando é Mirinho. Olha, manda um fotógrafo aqui na estação de Cordovil, pra fotografar um cara.
Que é que houve?
Foi atropelado pelo trem, está todo esmigalhado. Vai dar uma fotografia linda para a primeira página.
O cadáver está sem cabeça?
Não.
Então não vale a pena.
Não diga isso, chefe. Mande o fotógrafo que, até ele chegar, eu dou jeito de arrancar a cabeça do falecido.
*Retirado do livro "Dois Amigos e um Chato", Editora Moderna Ltda. Autor: Stanislaw Ponte Preta |