Que é amor para você? Talvez não devamos perguntar isso. "Que é o Amor", "que é amar". É possível perguntar assim, tão no ar? O amor no luar, no plenilúnio, não é um e o amor sob os lençóis não é outro? O amor do beijo roubado na escada escura? O amor do primeiro beijo? Da primeira carícia no seio, da primeira carícia recebida no seio, eu e ela com o coração querendo sair pela garganta? Escutando os passos de quem se aproxima? De quem se aproxima e não deveria nem poderia nunca ter se aproximado? O amor no elevador, no escritório, no consultório, no banco do carro? No estacionamento, no muro atrás da velha igreja?
Ou é amar a rotina de quem compartilha o mesmo leito, do mesmo jeito, anos a fio? O amor do olhar indiscreto? Do olhar indevido? Do beijo no rosto que não devia ser no rosto? Daquele que cada vez vai ficando mais próximo dos lábios? Mais público e mais secreto? Ou é amor esse que sentimos por quem percebe nosso cheiro de desejo quando está perto? O do suor de quem transpira porque esse alguém está próximo? Do gelo na espinha? Das mãos suadas. Do nó na garganta. Da umidade secreta, súbita. Das tolices que saem quando não se sabe o que dizer?
Faz parte do amor a mágoa do amor traído? Dessa dor pungente que desce como ácido nos dilacerando as entranhas; daquela traição que dói no coração e revira as vísceras? Do beijo compartilhado? Do beijo retribuído? Dado e retribuído a outra pessoa? Da carícia dada? Da carícia sentida e gostada... dada por outra mão que não a nossa? Do prazer com outro corpo que não o nosso? Da indiscreta conta de um motel nunca visitado? Do perfume estranho? Do cabelo na roupa? Da mancha de batom na roupa íntima? De um outro nome pronunciado na auge da paixão... daquele que congela o fogo? Da imagem de outro corpo que subitamente substitui o corpo de outra pessoa, no momento menos esperado mas, talvez, mais desejado?
Não é também a solidão da desilusão? De você no meio da rua deserta num dia frio de vento e chuva? De você a sós sentado num banco de um parque deserto, com os cotovelos nas pernas e a as mãos cobrindo o rosto? Não é talvez a caminhada no meio do aguaceiro... do andar sem rumo pelas ruas surdas e mudas, com gente sem rosto, sem expressão? Da lágrima que teima em escorrer pelo rosto? Daquela outra que queima o coração? Da dor das palavras que jamais poderiam ter sido proferidas, escutadas...? "Não te amo mais....amo outra pessoa?" O "não te quero mais" na hora menos esperada? O "te amo" surpreendido nos lábios do ser amado sendo dito para outra pessoa?
Secretamente... aos cochichos, no telefonema suspeito... Quem sabe, o amor também seja o que sentimos ao escutar o temível "por que eu? Por que a mim?" enquanto sentimos um punho se fechando no coração, apertando-o , aprisionando-o com seus dedos e ferindo-o com suas garras. "Por que a mim? Por quê? Que foi que eu te fiz?"
Ou faz parte do amor o desejo insatisfeito? Entregar-se para ser usado... não para ser amado... Entregar-se para ser sugado, sem piedade, dia após dia... sem nenhum retorno, na monotonia de instantes intermináveis. Sem sequer um sorriso... um gesto atencioso... Nem sequer um "eu te amo". Virar uma laranja espremida, chupada, partida, comida, mordida, engolida e jogada fora... como um bagaço qualquer.
Ah, o "eu te amo" jamais pronunciado, jamais escutado. Faz parte do amar não saber que é pior, não ter dito "eu te amo" ou não tê-lo escutado...
O "eu te amo" mentiroso, aquele que se diz ou se escuta por compaixão.
É amor ou é pena? É amor ou é lástima?
E o amor irrealizado? O amor por quem nunca poderemos amar? O amor que não pode se concretizar, que nunca saberemos como poderia ter sido.
Aquele amor inconfessado, sentido, louco... Aquele "meu amor" que quer sair e fica entalado... Aquele que já foi declarado, o amor dito, confessado, mas que deve permanecer distante. O amor que chega tarde demais... O que deveria ter chegado faz tempo. Aquele que certamente nos teria feito felizes e cuja impossibilidade traz mais dor na nossa solidão acompanhada..., da frustração que vem da companhia que faz mais sofrida nossa mediocridade compartilhada. Faz parte do amar saber que a meiguice de quem jamais teria nos magoado ficará adocicando outras vidas, não a nossa; saber que os afagos da pessoa que amamos aninham um outro alguém... Não faz parte do amor sentir aquela dor causada por quem um dia se foi intempestivamente, por quem nunca mais voltará? Por quem foi sem dizer por quê.
"Por quê! Só queria saber isso." Mas nunca se saberá... "Por onde andará?
Com quem estará? Será feliz? Que foi que eu diz, que foi que eu fiz?" Ou faz parte do amor ter de perguntar: o que há de errado comigo? Será que alguém é capaz de me amar? Será que mereço alguém? Ou é amor o que recebemos daquele ser que nos fere, nos insulta, nos agride...De quem encontra solaz em nos humilhar. Daquele que nos diminui, que nos ignora. Daquele que nos usa no desejo alheio e nos rejeita quando o desejo é nosso. Aquele do amor ferino, que se afirma na negação nossa.
Podemos ser realmente transparentes com quem amamos? Existe alguém com quem possamos compartilhar absolutamente tudo o que se passa por nossas mentes? Dizer tudo o que desejamos? Tudo o que fantasiamos. Todos os prazeres secretos que tivemos realmente ou queremos ter quando estamos a sós?
Existe esse alguém que nos aceitaria se soubesse da nossa vida íntima? Aquela com outros amores? Ou a sós? Aquela na banheira? No chuveiro?
Na solidão da cama vazia? Nos nossos sonhos proibidos? É possível mesmo só desejar quem se ama? É impossível desejar quem não se ama? A atração do marido pela cunhada, da mulher pelo cunhado, do primo pela prima, desta pelo primo; do homem pela melhor amiga de quem ama, o dela pelo nosso melhor amigo? Pode ser amor esse que ofende a moral e os bons costumes. Ou é a moral e os bons costumes que ofendem o amor?
Como entender? Como aceitar? Por que devemos sentir isso? Somos levados pelo mal? Pelo proibido? Existe esse alguém que poderia nos conhecer realmente, não quem externamente somos, mas quem gostaríamos de ser, ou quem somos só para nós mesmos? Existe esse alguém que nos amaria conhecendo os anseios de todas as formas de amar e todos os prazeres que desejamos ou tivemos?
Existe esse alguém que teria a coragem de querer saber? E nós, teríamos a coragem de confessar? Ou de escutar tal confissão? É então uma face do amor esconder o que somos e ser obrigados a amar como imaginamos que os outros querem que amemos? Ou é melhor que nos contentemos com ser aquilo que quem amamos pensa que somos?
Compartilhamos com quem amamos só aquilo que imaginamos ela estaria disposta a aceitar. Poderia eu ter dito, naquela oportunidade em que estive mesmo apaixonado, que me senti irresistivelmente atraído por uma mulher que nem conhecia? Naquela ocasião eu mesmo não compreendi por quê.
Teria estado em condições de explicar?
Amor, então, é e pode ser uma coisa só? Há uma única forma de amar? Vivemos, então, as várias formas de amar ou vivemos uma mentira?
Amamos a outra pessoa pelo que achamos que ela é? Amamos como gente sóbria por sermos obrigados a esconder nossa loucura? Amar-nos-iam se descobrissem a loucura que se esconde por trás da nossa conveniente e fingida sobriedade?
Autor: Gonçalo Armijos Palácios |