"Poesia, meus caros, é a encarnação sagrada de um sorriso. Poesia é um suspiro que seca as lágrimas. Poesia é um espírito que se aloja nas profundezas da alma, cujo alimento é o coração e cujo vinho é a afeição. Poesia que não vem desta origem é a de um falso poeta.
(...)
Vós, poetas de verdade, perdoai-nos. Pertencemos a um novo mundo onde os homens correm atrás de coisas mundanas e a poesia também tornou-se uma mercadoria e não mais um sopro da imortalidade."
O animal que não fala
No semblante do animal que não fala, há todo um discurso que somente um espírito sábio pode realmente entender. (De um poema hindu)
Quase ao crepúsculo de um lindo dia, quando a fantasia se apoderou de meu espírito, eu passava pelos limites da cidade e me detive diante do muro de uma casa abandonada da qual apenas restavam corroídos alicerces.
No terreiro pedreguento vi um cachorro deitado sobre imundícies e resíduos. Sua pele estava coberta de feridas e a doença dominava seu corpo débil. Mirando de quando em quando o sol poente, seus olhos tristonhos exprimiam humilhação, desespero e miséria.
Caminhei vagarosamente em sua direção, desejando que eu soubesse a língua dos animais, de modo a poder consolá-lo com minha simpatia. Porém minha aproximação só lhe causou terror, e o pobre animal tentou levantar-se sobre suas pernas paralíticas. Caindo ele me olhou de uma maneira em que havia ódio e súplica misturados. No seu olhar havia uma comunicação mais lúcida que as palavras dos homens e mais emocionante que as lágrimas das mulheres. Eis o que o entendi dizer:
"Homem, tendo sofrido todas essas doenças causadas por tua brutalidade e perseguição.
"Fugindo dos teus pés agressivos, refugiei-me aqui pois as imundícies e o lixo são mais carinhosos que o coração do Homem; eles transmitem menos melancolia que a alma do Homem. Vai-te, intruso, para o teu mundo anárquico e sem lei.
"Sou uma criatura miserável que serviu o filho de Adão com fé e lealdade. Eu era o companheiro fiel do homem e o protegia dia e noite. Sentia profundamente sua ausência e saudava com alegria a sua volta. Contentava-me com pedaços de miolo que caíam de sua mesa e ficava feliz com os ossos que seus dentes tinham descarnado. Mas quando fiquei velho e doente, ele me tocou de sua casa e abandonou-me sem piedade à fúria dos meninos dos becos.
"Ó filho de Adão, vejo a similaridade entre a minha situação e a dos próprios homens quando a idade os inutiliza.
"Há soldados que lutaram por seus países quando estavam na força da vida e que depois ainda cultivaram o seu solo. Mas depois que o inverno de suas vidas chegou e que não mais eram úteis, foram atirados para as margens.
"Vejo também uma semelhança entre minha sorte e a de uma mulher que durante os dias de sua bela juventude entusiasmou o coração de um jovem, e que mais tarde, como mãe devotou a vida aos filhos. Mas agora, decrépita, é ignorada e abandonada. Como sois opressivos, filhos de Adão, e como sois cruéis."
Estas foram as palavras do animal que não fala, captadas por meu coração.
Kahil Gibran, em Pensamentos e Meditações, Tradução de Emil Farhat, Editora Record
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