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A Falência do Prazer e do Amor


Terceiro Tema


Beber a vida num trago, e nesse trago 
Todas as sensações que a vida dá 
Em todas as suas formas [...] 

Dantes eu queria 
Embeber-me nas árvores, nas flores, 
Sonhar nas rochas, mares, solidões. 
Hoje não, fujo dessa idéia louca: 
Tudo o que me aproxima do mistério 
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas 
Sensações, muitas, muitas sensações, 
De tudo, de todos neste mundo humanas, 
Não outras de delírios panteístas 
Mas sim perpétuos choques de prazer 
Mudando sempre, 
Guardando forte a personalidade 
Para sintetizá-las num sentir. 
Quero 
Afogar em bulício, em luz, em vozes, 
Tumultuárias [cousas] usuais 
o sentimento da desolação 
Que me enche e me avassala. 
Folgaria 
De encher num dia, [...] num trago, 
A medida dos vícios, inda mesmo 
Que fosse condenado eternamente 
Loucura! ao tal inferno, 
A um inferno real. 

II 

Alegres camponeses, raparigas alegres e ditosas, 
Como me amarga n'alma essa alegria! 

Nem em criança, ser predestinado, 
Alegre eu era assim; no meu brincar, 
Nas minhas ilusões da infância, eu punha 
O mal da minha predestinação. 

Acabemos com esta vida assim! 
Acabemos! o modo pouco importa! 
Sofrer mais já não posso. Pois verei 
Eu, Fausto aqueles que não sentem bem 
Toda a extensão da felicidade, 
Gozá-la? 

Ferve a revolta em mim 
Contra a causa da vida que me fez 
Qual sou. E morrerei e deixarei 
Neste inundo isto apenas: uma vida 
Só prazer e só gozo, só amor, 
Só inconsciência em estéril pensamento 
E desprezo [...] 

Mas eu como entrarei naquela vida? 
Eu não nasci para ela. 

III 

Melodia vaga 
Para ti se eleva 
E, chorando, leva 
O teu coração, 
Já de dor exausto, 
E sonhando o afaga. 
Os teus olhos, Fausto, 
Não mais chorarão. 

IV 

Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído, 
Só sinto um vácuo imenso onde alma tive... 
Sou qualquer cousa de exterior apenas, 
Consciente apenas de já nada ser... 
Pertenço à estúrdia e à crápula da noite 
Sou só delas, encontro-me disperso 
Por cada grito bêbedo, por cada 
Tom da luz no amplo bojo das botelhas. 
Participo da névoa luminosa 
Da orgia e da mentira do prazer. 
E uma febre e um vácuo que há em mim 
Confessa-me já morto... Palpo, em torno 
Da minha alma, os fragmentos do meu ser 
Com o hábito imortal de perscrutar-me. 



Perdido 
No labirinto de mim mesmo, já 
Não sei qual o caminho que me leva 
Dele à realidade humana e clara 
Cheia de luz [...] alegremente 
Mas com profunda pesadez em mim 
Esta alegria, esta felicidade, 
Que odeio e que me fere [...] 

Sinto como um insulto esta alegria 
Toda a alegria. Quase que sinto 
Que rir, é rir não de mim, mas, talvez, 
Do meu ser. 

VI 

Toda a alegria me gela, me faz ódio. 
Toda a tristeza alheia me aborrece, 
Absorto eu na minha, maior muito Que outras 
[...] 

Sinto em mim que a minha alma não tolera 
Que seja alguém do que ela mais feliz; 
O riso insulta-me, por existir; 
Que eu sinto que não quero que alguém ria 
Enquanto eu não puder. Se acaso tento 
Sentir, querer, só quero incoerências 
De indefinida aspiração imensa, 
Que mesmo no seu sonho é desmedida ... 

VII 

tua inconsciência alegre é uma ofensa 
para mim. O seu riso esbofeteia-me! 
Tua alegria cospe-me na cara! 
Oh, com que ódio carnal e espiritual 
escarro sobre o que na alma humana 
Fria festas e danças e cantigas... 

Com que alegria minha, cairia 
Um raio entre eles! Com que pronto 
Criaria torturas para eles 
Só por rirem a vida em minha cara 
E atirarem à minha face pálida 
O seu gozo em viver, a poeira que arda 
Em meus olhos dos seus momentos ocos 
De infância adulta e tudo na alegria! 

Ó ódio, alegra-me tu sequer! 
Faze-me ver a Morte. roendo a todos, 
Põe-me ria vista os vermes trabalhando 
Aqueles corpos! [...] 

VIII 

Triste horror d'alma, não evoco já 
Com grata saudade, tristemente, 
Estas recordações da juventude! 
Já não sinto saudades, como há pouco 
Inda as sentia. Vai-se-me embotando, 
Co'a força de pensar, contínuo e árido, 
Toda a verdura e flor do pensamento. 
Ao recordar agora, apenas sinto, 
Como um cansaço só de ter vivido, 
Desconsolado e mudo sentimento 
De ter deixado atrás parte de mim, 
E saudade de não ter saudade, 
Saudades dos tempos em que as tinha. 
Se a minha infância agora evoco, vejo 
Estranho! como uma outra criatura 
Que me era amiga, numa vaga 
Objetivada subjetividade. 
Ora a infância me lembra, como um sonho, 
Ora a uma distância sem medida 
No tempo, desfazendo-me em espanto; 
E a sensação que sinto, ao perceber 
Que vou passando, já tem mais de horror 
Que tristeza [...] 
E nada evoca, a não ser o mistério 
Que o tempo tem fechado em sua mão. 
Mas a dor é maior! 

IX 

Ó vestidas razões! Dor que é vergonha 
E por vergonha de si-própria cala 
A si-mesma o seu nexo! Ó vil e baixa 
Porca animalidade do animal, 
Que se diz metafísica por medo 
A saber-se só baixa ... 

Ó horror metafísico de ti! 
Sentido pelo instinto, não na mente! 
Vil metafísica do horror da carne, 
Medo do amor... 

Entre o teu corpo e o meu desejo dele 
'Stá o abismo de seres consciente; 
Pudesse-te eu amar sem que existisses 
E possuir-te sem que ali estivesses! 

Ah, que hábito recluso de pensar 
Tão desterra o animal que ousar não ouso 
O que a [besta mais vil] do mundo vil 
Obra por maquinismo. 

Tanto fechei à chave, aos olhos de outros, 
Quanto em mim é instinto, que não sei 
Com que gestos ou modos revelar 
Um só instinto meu a olhos que olhem ... 

Deus pessoal, deus gente, dos que crêem, 
Existe, para que eu te possa odiar! 
Quero alguém a quem possa a maldição 
Lançar da minha vida que morri, 
E não o vácuo só da noite muda 
Que me não ouve. 



O horror metafísico de Outrem! 
O pavor de uma consciência alheia 
Como um deus a espreitar-me! 
Quem me dera 
Ser a única [cousa ou] animal 
Para não ter olhares sobre mim! 

XI 

Um corpo humano! 
Às vezes eu, olhando o próprio corpo, 
Estremecia de terror ao vê-lo 
Assim na realidade, tão carnal. 

XII 

Sinto horror 
À significação que olhos humanos 
Contém... 

Sinto preciso 
Ocultar o meu íntimo aos olhares 
E aos perscrutamentos que olhares mostram; 
Não quero que ninguém saiba o que sinto, 
Além de que o não posso a alguém dizer... 

XIII 

Com que gesto de alma 
Dou o passo de mim até à posse 
Do corpo de outros, horrorosamente 
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele 
Como eu sou eu. 

XIV 

Não me concebo amando, nem dizendo 
A alguém "eu te amo" sem que me conceba 
Com uma outra alma que não é a minha 
Toda a expansão e transfusão de vida 
Me horroriza, como a avaro a idéia 
De gastar e gastar inutilmente 
Inda que no gastar se [extraia] gozo. 

XV 

Quando se adoram, vividos, 
Dois seres juvenis e naturais 
Parece que harmonias se derramam 
Como perfumes pela terra em flor. 

Mas eu, ao conceber-me amando, sinto 
Como que um gargalhar hórrido e fundo 
Da existência em mim, como ridículo 
E desusado no que é natural. 

Nunca, senão pensando no amor, 
Me sinto tão longínquo e deslocado, 
Tão cheio de ódios contra o meu destino. 
De raivas contra a essência do viver. 

XVI 

Vendo passar amantes 
Nem propriamente inveja ou ódio sinto, 
Mas um rancor e uma aversão imensos 
Ao universo inteiro, por cobri-los. 

XVII 

O amor causa-me horror; é abandono, 
Intimidade... 
Não sei ser inconsciente 
E tenho para tudo [...] 
A consciência, o pensamento aberto 
Tornando-o impossível. 

E eu tenho do alto orgulho a timidez 
E sinto horror a abrir o ser a alguém, 
A confiar n’alguém. Horror eu sinto 
A que perscrute alguém, ou levemente 
Ou não, quaisquer recantos do meu ser. 

Abandonar-me em braços nus e belos 
(Inda que deles o amor viesse) 
No conceber do todo me horroriza; 
Seria violar meu ser profundo, 
Aproximar-me muito de outros homens. 

Uma nudez qualquer espírito ou corpo 
Horroriza-me: acostumei-me cedo 
Nos despimentos do meu ser 
A fixar olhos pudicos, conscientes. 
Do mais. Pensar em dizer "amo-te" 
E "amo-te" só só isto, me angustia... 

XVIII 

[...] eu mesmo 
Sinto esse frio coração em mim 
Admirado de ser um coração 
Tão frio está. 

XIX 

Seria doce amar, cingir a mim 
Um corpo de mulher, mais frio e grave 
e feito em tudo, transcendentalmente 
O pensamento agrada-me, e confrange-me 
Do terror de perto, e [junto] 
Em sensação ao meu, um outro corpo. 
Gelada mão misteriosa cai 
Sobre a imaginação [...] 

XX 

É isto o amor? Só isto? [...] 
Sinto ânsias, desejos, 
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa 
No íntimo meu, alguma cousa ali 
Fria, pesada, muda permanece. 

[P'ra] isto deixei eu a vida antiga 
Que já bem não concebo, parecendo 
Vaga já. 
Já não sinto a agonia muda e funda 
Mas uma, menos funda e dolorosa, 
[Bem] mais terrível raiva [...] 
De movimentos íntimos, desejos 
Que são como rancores. 

Um cansaço violento e desmedido 
De existir e sentir-me aqui, e um ódio 
Nascido disto, vago e horroroso, 
A tudo e todos... 

XXI 

Amo como o amor ama. 
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. 
Que queres que te diga mais que te amo, 
Se o que quero dizer-te é que te amo? 

Quando te falo, dói-me que respondas 
Ao que te digo e não ao meu amor. 

Ah! não perguntes nada; antes me fala 
De tal maneira, que, se eu fora surda, 
Te ouvisse todo com o coração. 

Se te vejo não sei quem sou: eu amo. 
Se me faltas [...] 
Mas tu fazes, amor, por me faltares 
Mesmo estando comigo, pois perguntas 
Quando é amar que deves. Se não amas, 
Mostra-te indiferente, ou não me queiras, 
Mas tu és como nunca ninguém foi, 
Pois procuras o amor pra não amar, 
E, se me buscas, é como se eu só fosse 
Alguém pra te falar de quem tu amas. 

Quando te vi amei-te já muito antes: 
Tornei a achar-te quando te encontrei. 
Nasci pra ti antes de haver o mundo. 
Não há cousa feliz ou hora alegre 
Que eu tenha tido pela vida fora, 
Que o não fosse porque te previa, 
Porque dormias nela tu futuro. 

E eu soube-o só depois, quando te vi, 
E tive para mim melhor sentido, 
E o meu passado foi como uma 'strada 
Iluminada pela frente, quando 
O carro com lanternas vira a curva 
Do caminho e já a noite é toda humana. 

Quando eu era pequena, sinto que eu 
Amava-te já longe, mas de longe... 

Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta! 
Compreendo-te tanto que não sinto, 
Oh coração exterior ao meu! 
Fatalidade, filha do destino 
E das leis que há no fundo deste mundo! 
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto 
De o sentir...? 


XXII 

Pra que te falar? Ninguém me irmana 
Os pensamentos na compreensão. 
Sou só por ser supremo, e tudo em mim 
É maior. 

XXIII 

Reza por mim! A mais não me enterneço. 
Só por mim mesmo sei enternecer-me, 
Sobra a ilusão de amar e de sentir em que forçadamente me detive. 
Reza por mim, por mim! Eis a que chega 
A minha tentativa [em] querer amar. 
.


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