(...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
Há calma e frescura na superfície intata.
Hei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sobre a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito elas se refugiaram da noite as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo
início
Em verdade te digo Reinaldo Você não é olhos Você não é sangue Você não é ossos Você não é pele. Tudo isso é acessório.
Em verdade te digo:
Você é sentimento Você é calor Você é pensamento. Isso tudo e o antes e o depois é Deus.
Em verdade te digo:
É o pensamento que atua e vibra. É o sentimento que sangra. É o amor que aquece a criatura divina.
Autor: Carlos Drummond de Andrade
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