Claro que o corpo não é feito só para sofrer, mas para sofrer e gozar. Na inocência do sofrimento como na inocência do gozo, o corpo se realiza, vulnerável e solene. Salve, meu corpo, minha estrutura de viver e de cumprir os ritos do existir! Amo tuas imperfeições e maravilhas, amo-as com gratidão, pena e raiva intercadentes. Em ti me sinto dividido, campo de batalha sem vitória para nenhum lado e sofro e sou feliz na medida do que acaso me ofereças. Será mesmo acaso, será lei divina ou dragonária que me parte e reparte em pedacinhos? Meu corpo, minha dor, meu prazer e transcendência, é afinal meu ser inteiro e único.
Autor: Carlos Drummond de Andrade
|