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Achados e Perdidos


Mamãe gritava alegre para mim: "Veja menino, veja: mais uma daquelas cartas da América. Sua namoradinha. Saliente! Lascou os lábios em batom, na parte de trás do envelope. Faça uma idéia! E que selo esquisito!"

Fiquei mais vermelho do que o tal batom. Corri para o quintal e lá fui abrir. Tinha conseguido aquele endereço na aula de inglês. Uma revista estimulava os pen-pals, estudantes em diferentes países, a se corresponder, mesmo não se conhecendo pessoalmente. Que custo! O porte postal era pago com moedinhas economizadas uma a uma. Tia Emília, sabichona, falou que era melhor escrever a lápis, pois a carta ficava menos pesada. E em papel-arroz. "Não sabe que vai de aeroplano, não? Qualquer graminha paga a mais".

Debaixo dos tais lábios impressos vinha escrito a mão, em letras esmeradas, com caneta-tinteiro ( ainda não existia esferográfica), sealed with a kiss, que, durante anos, traduzi por selado com um beijo. Quando consegui melhor domínio do idioma, preferi "lacrado".

Ela vivia em NovaYork, e isso ocorria meio século atrás. Isso mesmo: uns cinquenta anos bem medidinhos. Em Franca, cidade do interior paulista onde eu morava, nem sequer podia tirar fotografia colorida. Era só em preto e branco – excepcionalmente, se obtinha do fotógrafo um retrato pintado a mão. Apesar de caro, foi um desses que lhe remeti. Ela me mandou muitos, só em monocor. Uma graça, de sapato colegial e saias longas, como as nossas normalistas de então.

Durou muitos anos nossa troca de cartas. Será que a amei? Havia orgulho e amor-próprio, talvez ciúmes, que senti quando me escreveu contando que fora com as amigas tomar banho de sol – lógico que de maiô – noa altos do edifício onde residia. Do prédio ao lado, uns molecões atrevidos começaram a provoca-las, alardeando quão bonitos eram seus corpos. Bandidos!

Mudei-me para São Paulo, a fim de continuar os estudos e de trabalhar no fórum, num jornal e na rádio. Aos poucos foi murchando o entusiasmo pela americaninha. Outras moças - bem mais palpáveis – fizeram meu entusiasmo pela gringuinha arrefecer. Valeu pelo aprendizado do inglês e pelo gostoso do romance adocicado, mas todas as cartas sumiram no ralo do tempo.

Já madurão, retornando à minha terrinha e tendo residido por alguns anos no estrangeiro, inclusive nos Estados Unidos, eis que começo a lidar com a Internet no computador. Num Domingo de manhã, ainda calouro demais, consegui, por felizardo acaso, acesso a uma page que propiciava achar pessoas e endereços naquele país. Céus! Lembrei-me dela, cujo nome, de familia italiana, não permite fácil homonímia, na Big Apple. Consultei. Quase cai da cadeira quando vieram – tintin por tintin – Número, avenida e código postal. Ela ainda vivia no mesmo bairro. (Também não voltei eu para a mesma Villa Franca d’el Rey?) E o principal: o telefone, o mágico e fantástico número, a senha que me permitiu passar para o mundo de outrora, voltar no tempo.

Telefonei-lhe, trêmulo, e envergonhado, como antes. Identifiquei-me como um ghost of the past. Ficou encantada ao reconhecer o seu fantasma do passado. E exclamou o meu nome, pronunciando o gê inicial à espanhola: Reraldo. Incrível que, mesmo trocando cartas por tantos anos, ela então não sabia pronunciar meu prenome. Mas guardava o resto todo, bem de cor, como provou: Reraldo Tasso de Andrade Rocha.

Está viúva e me contou sobre as mechas brancas de seu cabelo, dizendo que a primeira era por causa do filho mais velho, a outra, pela filha, a terceira pelo caçula... Combinamos de eu ir visita-la. Mas e o medo de fatal decepção recíproca, diante dos escombros do que fomos nós, aqueles jovens até que bonitinhos? Será que vou Ter coragem?


Geraldo Tasso, 65 anos, divorciado, é desembargador aposentado, jornalista e escritor. Seu último livro de contos é O Apito de Trem, da A. Rocha Editor


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