No princípio, não eram aves nem eram flores... Logo após o início dos tempos com uma pincelada aqui mais uma cor além, restos de tinta seca morrendo aos poucos em paleta de pintor cansado, nasceram os alados. Ainda não eram aves - não; mas sim monstros - isso eram. Bicos enormes povoados de dentes em corpos de répteis e um tufo de penas ali e acolá; mas quantas vezes - Hum! Repugnante, assustador - couraçados pelados cruzando os ares. E para tanto deles voar era apenas um sonho distante. Somente planavam como aliados alados da morte; do pico de um abismo para o pico de outro. Mas um dia... Ah! Mas um dia, um feio e horroroso monstro - igual a tantos outros - parou para olhar uma plantinha Encontrou-a tão singela, simples, desprotegida e bela, que não mais deixou de a olhar. Com o tempo descobriu que era mais; sabia agora que era amar. Amava aquele ser vegetal de uma cor só, simples, silêncioso e que dos seres era o mais lindo. E de tal modo amou a plantinha que a cada dia que passava e como que por magia. era cada vez menos alado e muito mais plantinha. A planta - linda - qual conto da Bela e do Monstro, também a cada dia que passava deixava de ser vegetal ! e era mais animal. Finalmente, num dia muito especial o feio animal dos ares, beijo-a. Um estremecimento da mais pura felicidade invadiu os dois. Mais tarde e quem por ali passasse veria um corpo enorme e feio hirto e frio ao lado da pequenina planta seca e murcha. Tinham morrido de felicidade. As suas almas que tanto se tinham amado subiram ao céu onde se juntaram numa só para todo o sempre. E desde esse dia em diante não mais cessou de acontecer, criaturas aladas caíam na terra e aí se revestiam de formas e de cores; quentes e macias plantas ao sabor das correntes e aos cheiros dos ventos não mais pararam de voar. E foi assim, tal como no mais, que nasceu a primeira ave e a primeira flor - POR AMOR.
Autor: Manuel Tomé |