Pergunta 1 do Livro dos Médiuns, 2a parte, cap. XX, item 226.
O desenvolvimento da mediunidade guarda relação com o desenvolvimento moral dos médiuns ?
Resposta: Não. A faculdade propriamente dita se radica no organismo, independe do moral. O mesmo, porém, não se dá com o seu uso, que pode ser bom, ou mau, conforme as qualidades do médium.
Por mais que um grande contingente de companheiros das lides mediúnicas continue a afirmar a sua estranheza ou incompreensão, ante os ensinamentos apresentados nas páginas lúcidas de O Livro dos Médiuns, o fato é que as expressões de Allan Kardec seguem eivadas de lógica e correção, que necessitam do devido entendimento.
O referido ensino é o que se reporta à mediunidade como uma faculdade radicada no organismo. A partir daí sobrevem uma série de acaloradas discussões ou pertinazes processos de frieza à frente de tal pronunciamento do Codificador. O costume do indivíduo de não associar a experiência mediúnica ao organismo do médium, vendo-a somente como algo relativo ao espírito, absolutizando indevidamente a situação, provoca-lhe dificuldades na compreensão da questão.
O que ocorre, porém, por outro lado, é que tudo está correto e nobremente situado pelo notável mestre de Lion.
Sem qualquer dificuldade, compreender-se-á que toda percepção do invisível, isto é, toda captação da presença dos Sempre Vivos, é detectada pelo espírito. É a alma que possui os instrumentos para fazer os registros provenientes de outras almas. No entanto, parece-nos de fácil compreensão que a exteriorização dessa captação estará em função do corpo somático.
A sistematização neurológica deverá ser responsável por deixar jorrar para o exterior a luz da apreensão espiritual. Todo o material assimilado pela alma do médium escorrerá por meio dos canais nervosos, pelo organismo que ele enverga, a ponto de sentir que não haverá a corporificação do fenômeno sem a cooperação do corpo fisiológico.
Utilizemo-nos de algum exemplo singelo, mas que tem tudo para ajudar na compreensão da questão.
Um exímio pianista, detentor de grandiosos talentos, de admirado virtuosismo, somente poderá exprimir a sua arte, com perfeição, no caso em que lhe seja oferecido um piano de excelentes qualidades. Caso não se dê tal oferecimento, deveremos admitir que, por mais notável seja o intérprete, não logrará dar provas da sua capacidade uma vez que se utiliza de um instrumento inferior, defeituoso, impróprio para o mister desejado.
Cada corpo funciona como um instrumento e cada espírito será o intérprete da mensagem captada.
Qualquer indivíduo que reencarne com o projeto de atuar na esfera da mediunidade ostensiva, portanto, então, o compromisso mediúnico em sua folha de deveres, necessitará de um corpo físico que lhe possibilite a exteriorização da faculdade psíquica.
O sistema nervoso do futuro médium, tanto o central quanto o periférico, e aqui não nos deteremos em minúcias que poderiam tornar mais complexa a compreensão do que desejamos aclarar, é ajustado de tal maneira que o mínimo contato fluídico ou envolvimento psíquico dos desencarnados sobre ele, imponha-lhe percepções automáticas do invisível. Daí o encontrarmos portadores da faculdade mediúnica que exprimem seu descontentamento com a sua condição. Dizem, agora que estão na Terra esquecidos do seu pretérito de enormes carências, que desejarem sustar esses registros, pelos incômodos que lhes proporcionam por semelhantes registros mediúnicos, sem que a sua organização neuro-psíquica lhes permita. Não sentem coisa alguma num nível que se possa considerar mediúnico.
Tendo-se a mediunidade como passível de exteriorizar-se, graças ao perispírito, a túnica eletromagnética do espírito, e sendo ele ligado a corpo físico célula por célula, é compreensível que, quando um espírito comunicante faz vibrar o perispírito, por meio das energias que conseguem movimentar, as células orgânicas acompanham-no num processo de ressonância perfeito.
É por causa dessa ressonância que as células liberam suas substâncias, desde os processos de sudorese abundante e fria até os componentes citoplasmáticos, que formarão o ectoplasma, segundo a nomenclatura de Charles Richet, componentes esses que podem ser ricos em moléculas de ectoplasmias luminosas, quando os médiuns sejam de efeitos físicos.
A intensidade de vibração do perispírito determinará a intensidade de ressonância celular que, por ser turno, expressará a intensidade da exteriorização do fenômeno. É essa interação perispírito-corpo físico que imporá o nível de aprofundamento do transe mediúnico, observando-se que se há maior liberação nervosa dos registros perispirituais, a mostragem do comunicante é mais nítida, mais comprobatória, enfim.
Se em todos os fenômenos mediúnicos é o organismo, representado pelo sistema nervoso, que dá o tom da ocorrência, sem qualquer hesitação, podemos crer que os ditos fenômenos dependem do corpo do médium para que se manifestem. É por isso que na formosura de O Livro dos Médiuns, no item 159, co capítulo XIV,o Codificador informa que usualmente só se qualificam como médiuns aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva.
Uma vez que a maior ou menor interação perispírito-corpo físico está na dependência das conquistas gerais anteriores, das necessidades, méritos e deméritos de cada pessoa, teremos aí um maior grau de sensibilidade dos médiuns, chegando a compreender o porquê da variedade enorme de médiuns, tanto no tipo de manifestações que produzem quanto na intensidade em que as podem produzir.
* Do livro: Correnteza de Luz |