"(...) Não temais os que matam o corpo, e depois disso nada mais podem fazer. Mas eu vos mostrarei a quem e que deveis temer." (Lucas 12.4,5a).
Quantas coisas de valor deixamos de realizar por medo. Tememos represálias, perseguições. Por essa causa não arriscamos certas atitudes que poderiam ate solucionar situações complicadas, envolvendo vidas puras e inocentes. Ao próximo devemos respeito, mas não temor. Só a Deus precisamos temer porque Ele tudo sabe, tudo vê, tudo conhece e tudo pode.
Conta-se que havia na China um mandarim amante dos objetos de arte. Vivia ali também uma velha mãe, viuva, com as filhas: Mitiko e Sing. Como elas lutavam, enfrentando a pobreza em que o pai as deixara, Mitiko desejou trabalhar no palácio do mandarim, em um cargo muitíssimo arriscado. Era o de limpar os milhares de vasos de cristal e porcelana que compunham a majestosa coleção do imperador. Sabia que se um deles se partisse, ai da sua cabecinha: seria decapitada sem apelação pelo carrasco, que era a própria sombra do soberano. Assim mesmo Mitiko se arriscou e foi.
A partir dai, as coisas mudaram em sua casa. Havia fartura. Ela e a irmã começaram a estudar a noite. Tudo ia muito bem, ate que num triste dia Mitiko chegou em casa chorando copiosamente. Quebrara um vaso dos mais raros. No dia seguinte, como sempre, o fiscal faria o balanço dos objetos numerados e o seu crime seria descoberto. Sing estava pálida e muda de pavor. Não dormiu, mas elaborou um plano igualmente arriscado. Saiu muito cedo e foi ao palácio. La, na sala das porcelanas, começou a recordar todos os que perderam a vida por causa desses malditos objetos. Cheia de indignação, foi atirando contra o solo tudo, reduzindo-os em cacos. Parecia desvairada... Assustados com o estranho barulho, acudiram os criados. Sabendo do fato, o mandarim ordenou que Sing fosse amarrada e levada a sala das audiências, onde só a tarde deu ordens ao carrasco para que trouxesse a menina. Sentado em seu trono de veludo, disse-lhe ele:
- Certamente já sabe qual a sorte que lhe espera, insolente menina.
- Sim, sei; e aqui estou a disposição do carrasco. Se cada objeto da sua coleção representa a vida de alguém, eu dou graças a Deus por haver destruído vários deles e com isso salvar da morte mais de setenta pessoas!
O mandarim quedou-se pensativo e confuso. Essa garota o desafiava com singular coragem. Ela não temia a morte! Impressionado, sobretudo, pelo seu tão pronunciado amor ao próximo, o mandarim falou-lhe decidido:
- Saiba que a senhorita não morrera! Seu gesto de bravura tocou meu coração. De hoje para a frente agirei de outra forma. Pode se retirar tranquila.
Sing respirou aliviada. Finalmente, havia conseguido mudar o rumo das coisas. Já em casa, as três agradeciam a Deus por haver orientado tão bem a menina naquele seu plano ousado, permitindo que tudo acabasse bem. Durante anos Mitiko foi a dedicada guardadora da coleção do mandarim, sem precisar sentir aquele pavor, como se uma espada a ameaçasse sempre...
Sua irmã foi chamada por todos de "A chinezinha heróica".
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