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Misericórdia e Recompensa


"Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia." (Mateus 5.7).

Um dos escravos de certo ex-consul da África do Norte, não suportando a crueldade do seu senhor, fugiu numa noite, embrenhando-se numa imensa floresta, onde permaneceu por algum tempo ate que, recapturado, foi parar em Roma. Ali, alguns anos mais tarde, nos dias de Caio César, realizava-se um terrível combate com as feras. No decorrer dessa nefasta programação, foi colocado dentro da arena o escravo foragido, cujo nome era Androcles. Ao vê-lo a distancia, o Leão estacou como que surpreendido, depois aproximou-se vagarosamente e com total tranquilidade pôs-se a lamber-lhe os pés, as mãos e os braços.

O infeliz escravo, apavorado pela ideia de morrer devorado por uma fera faminta, sentiu as pernas tremerem e o coração a bater descompassadamente, enquanto recebia as caricias de um tão temível animal. Finalmente, pouco a pouco, tentando controlar essa situação de medo, ele foi readquirindo as forcas e a coragem perdida. Voltou então os olhos para o leão e ambos, naquele momento, pareciam trocar efusivos cumprimentos, assim como quem estava se reconhecendo mutuamente. O povo, estarrecido com a cena estranha, rompeu em voz alta, aclamando o escravo. O imperador o chamou e indagou a respeito do acontecimento que o emocionou.

Então o escravo relatou uma surpreendente historia. Contou que naquela noite que fugira do seu cruel senhor, embrenhando-se na floresta, escondeu-se numa solitária caverna. Alta madrugada, entrava também ali um leão que manquejava, em virtude de um grave ferimento em sua pata. Deitou-se a um canto, distante da pequena tocha acesa pelo escravo e, por seus gemidos, deu a entender a torturante dor que sofria.

De inicio, Androcles teve medo de socorrer a fera, mas depois, vendo-a erguer a pata, descobriu uma enorme lasca de lenha ali cravada. O escravo, servindo-se de uma pequena faca que levava consigo, com grande paciência e cuidado para não causar ainda maiores sofrimentos ao animal, conseguiu arrancar a estaca. Lavou o ferimento, retirando toda a terra ali acumulada, e o pobre Leão pode repousar um pouco.

Agora, tanto tempo depois, os dois se encontraram novamente e desta feita naquela arena. Assim como o escravo soube ser misericordioso para com a fera necessitada, agora esta lhe recompensou poupando-lhe a vida, num grande gesto de misericórdia.

A misericórdia e uma nobre filha da fé, que une em si todas as obras do mais forte e também mais privilegiado em relação ao próximo necessitado. Saibamos, portanto, pratica-la na certeza de um dia recolhermos os frutos dessa benfazeja semeadura.


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