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Espírito de Justiça


"Filhinhos, ninguém vos engane; quem pratica a justiça e justo, assim como ele e justo." (1 Joao 3.7).

O conceito de justiça varia muito de pessoa para pessoa. Porem, e certo: um caráter reto se expressara sempre mediante uma conduta reta. Cristo nos e apresentado como o Homem ideal - o modelo de justiça. As boas obras de piedade jamais farão com que o homem se torne justo, pio, mas um homem piedoso praticara sempre a justiça.

Conta-se que Martim Francisco, um dos velhos Andradas, exerceu cargo de ministro da Fazenda, pouco depois da Independência do Brasil. Certo dia, ele efetuou o pagamento salarial a José Bonifácio. Este colocou o dinheiro no forro do chapéu e foi ao teatro. Mas, para sua desventura, um ladrão furtou-lhe o chapéu... O glorioso Andrada tinha agora pela frente um longo mês de penúria, pois perdera todo o dinheiro. Entretanto, Pedro I, que estimava muito o estadista chamou o ministro e ordenou-lhe:

- Pague de novo os vencimentos de seu irmão, que com o furto do chapéu acabou perdendo todo o salário que acabara de receber.

- Senhor - acudiu peremptório o guarda do erário publico - nomeie vossa Majestade outro ministro, porque eu jamais faria isso. O ano tem doze meses para todos e não poderá ter treze para o Sr. José Bonifácio.

Só que, para sustentar essa rígida doutrina, ele dividiu com o irmão o seu próprio dinheiro. Ele era enérgico, mas sabia também ser generoso. Uma noite, cansado, o político recolhera-se mais cedo do que comumente. Antes, porem, que adormecesse, ouviu um rumor estranho no jardim da casa. Sentou-se na cama para ouvir melhor. Eram sons de passos macios, cautelosos. Movimento brando de portas, que se abrem vagarosamente... tilintar de objetos a um toque inesperado e desprevenido.

A essa altura, o ministro apurou bem o ouvido e concluiu: estava com um amigo do alheio em casa. A claridade rica e desabusada da lua cheia devassava a alameda; e ele divisou o larapio que fizera boa colheita dos seus moveis e preciosidades! Para intimida-lo, apontou-lhe uma arma e bradou com todas as forcas reservadas:

- Volte ja, seu maroto, e coloque cada coisa no lugar onde encontrou.

O gatuno, diante da atitude resoluta do político, obedeceu e repôs em boa ordem os objetos furtados. Confuso e envergonhado, preparava-se para a retirada quando Martim Francisco lhe falou outra vez:

- Espere um pouco, rapaz! Já não precisa mais ter tanta pressa - e, metendo a mão no bolso, sacou da carteira uma nota novinha e de alto valor na época, acrescentando em tom natural e compassivo: - Tome esta importância. Estou lhe pagando o carreto que fez, transportando os meus pertences da rua para os seus devidos lugares. Entendeu-se que nesse momento, afastada das nuvens, a lua brilhou ainda mais, como se esboçasse um largo sorriso no céu, da noite tranquila.

O homem implacável soube ser bom com o ingênuo e necessitado.


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