Prometeus Acorrentado


Esta Porta está destinada a nos contar a grande peça teatral Prometeus Acorrentado escrita por Ésquilo (525 - 456 a.C.). Sendo esta a obra prima de Ésquilo, foi Prometheus Acorrentado, peça da qual a dor torna-se o sinal característico do gênero humano.


Nota prévia sobre Prometheus 

A tragédia grega pressupõe, no público, o conhecimento da mitologia; para bem apreciá-la, portanto, é mister munir-se previamente de algumas noções, pelo menos daquelas mais intimamente ligadas a cada peça. 

Zeus, o grande senhor do Olimpo, não foi o único a sentar em seu trono. O primeiro foi Urano, o Céu; do consórcio de Urano com Géia, a Terra, nasceram os titãs, os ciclopes e os gigantes de cem braços. Mais importantes entre os titãs foram Crono e Jápeto. Crono destronou o pai e foi, por sua vez, deposto por Zeus, seu filho. Contra este novo senhor se sublevaram os titãs, que, para escalar o Olimpo, empilharam montanhas. Ao lado de Zeus se colocaram os ciclopes e os gigantes de cem braços, numa luta encarniçada, em que se atiravam dardos e rochedos. A vitória coube a Zeus, que alvejou os titãs com raios fabricados pelos ciclopes na oficina de Hefesto. 

Um filho de Jápeto, Prometheus, cujo nome significa previdente, ou precavido, foi nessa guerra um aliado de Zeus. Ele tinha criado o homem com o limo da terra; como sua criatura fosse, entre os mortais, o mais indefeso, ensinou-lhe o necessário para a sobrevivência e ministrou-lhe o conhecimento das artes. Para o exercício dessas era indispensável o fogo; ele roubou-o da forja de Hefesto, escondendo uma brasa no ôco duma férula. 

Orgulhosos de sua civilização, os homens passaram a julgar-se iguais aos deuses. Zeus, então, resolveu destruí-los pelo dilúvio e castigar Prometheus, protetor da humanidade, mandando-o prender acorrentado no pico rochoso duma montanha deserta.


Agora vamos a obra:

Seu começo nos leva a uma selvagem e primitiva paisagem onde, por ordem de Zeus, Hefaistos, com seus esbirros Cratos e Bia, acorrenta o titã a um rochedo. O regime de Zeus é recente e cruel. Prometheus, também titã, passara para o lado de Zeus, quando este lançou os titãs às trevas e subiu ao trono do mundo. 

Mas Prometheus roubou o fogo, e assim salvou a raça humana, que Zeus queria exterminar. Então o novo deus, irando-se, condena Prometheus a um castigo que excede qualquer medida. O coro da peça é formado pelas Oceânidas, que, lá na beira do mundo, emergem à superfície das águas, diante do sofredor, para executar seu destino e acompanhá-lo com seu sentimento e ponderações, através do discurso e do canto. O andamento da peça se faz possível graças às diversas pessoas que acercam do acorrentado. Aparece o próprio Oceano, cuja prudente exortação à submissão e à paciência se opõe debalde à obstinação de Prometheus. Entra em cena Io, também levada por Zeus a grave infortúnio. Despertou o amor do rei dos deuses, mas agora ciúmes de Hera a impelem a errar pelo mundo. Ela se queixa de sua desgraça e se inteira, pela boca de Prometheus, das peregrinações imensuráveis que a esperam através de terras desérticas e da salvação que lhe advirá do deus no Egito. Assim como Zeus, que domina ambos os destinos, os coloca numa relação significativa, do mesmo modo a redenção de Io faz supor a do titã, que se realizou a uma pela posterior desta trilogia. A Heracles, descendente de Io, caberá trazer libertação e reconciliação. Assim como Zeus derrubou seu antecessor, da mesma forma também ele pode cair, e há de cair, pois não conhece o segredo que Prometheus conhece: aquela união com Tétis, da qual nascerá o filho mais forte, de armas mais poderosas, capaz de derrubá-lo. 

Ao perceber que Prometheus conhece quem irá destroná-lo, Zeus manda Hermes falar com o titã, para que ele lhe revele o segredo. Mas Prometheus fecha-se em silêncio e sofre uma nova represália: o castigo de ter o fígado devorado por um abutre, que no dia seguinte regenerava-se e era devorado novamente. Permanecendo assim por muitos séculos, até sua profecia se realizar e o novo soberano libertá-lo. 

Nesta peça, Ésquilo cria o símbolo humano imortal: Prometheus é o que traz a luz à humanidade sofredora. O fogo, essa força divina, torna-se o símbolo sensível da cultura. Prometheus é o espírito criador da cultura, que penetra e conhece o mundo, que o põe a serviço da sua vontade por meio da organização das forças dele de acordo com os seus fins pessoais, que lhe descobre os tesouros e assenta em bases seguras a vida débil e oscilante do Homem.

É evidente que o seu pecado não consiste no roubo do fogo, considerado como delito contra a propriedade dos deuses, mas, de acordo com o sentido espiritual e simbólico que esse feito tem para Ésquilo, deve residir na relação com alguma trágica e profunda imperfeição do benefício que, com o seu maravilhoso dom, prestou à humanidade.

A tragédia do titânico criador de cultura inspira ao coro as seguintes palavras: Aprendi assim a conhecer o teu destino aniquilador, ó Prometheus! Essa passagem tem maior importância para a compreensão da idéia de que Ésquilo tinha da ação da tragédia. O que o coro diz de si mesmo, o espectador o vive pela sua própria experiência, e é necessário que assim seja. Esta fusão do coro com os espectadores representa uma nova etapa no desenvolvimento da arte coral de Ésquilo.

Uma das raízes mais vigorosas da força educativa da tragédia grega consiste no coro que, com seus cantos de simpática, objetiva na orquestra as experiências trágicas da ação. Quando o coro de Prometheus diz que só pelo caminho da dor se chega ao mais elevado conhecimento, atingimos o fundamento originário da religião trágica de Ésquilo.


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