Resumo do Livro - O Mundo de Sofia


Começamos a observar, primeiramente, um pensamento não definido no tempo-espaço, sem começo determinado e que imperava no início dos tempos até antes do aparecimento dos filósofos pré-Socráticos: o mitológico. 

Este pensamento foi a forma primordial das populações, cada qual a seu modo, entender os processos naturais a sua volta. Estava este relacionado ao panteísmo, sendo suas divindades as mantenedoras de um precário equilíbrio entre as forças do bem e do mal. Para que os povos se comunicassem com estas foram criados rituais religiosos, onde ofereciam sacrifícios ou oferendas para aplacar a fúria de determinado deus ou pedisse sua ajuda para determinada tarefa.

Tal pensamento foi o precursor de vários modismos que persistem ainda hoje em nosso inconsciente, bem como a superstição, muito em voga na antiga Grécia, antes do aparecimento dos filósofos.

Atenas, com a vitória grega sobre os persas, tornou-se capital ocidental da cultura e do saber. Isto ocorreu pois o desenvolvimento democrático dessa cidade permitiu que seus cidadãos (não se encaixavam os escravos) mais célebres começassem a refletir sobre o mundo que os cercavam. Apareceram pois os filósofos da natureza.

Tais filósofos procuravam entender os processos naturais que os cercavam, de uma forma genérica e abrangente. Tanto a base primordial de tudo que existe quanto o mundo dos sentidos foram levados em consideração, as vezes em conjunto ou defendidos separadamente por filósofos diferentes, que se opunham em relação ao que é eterno e imutável e o que é efêmero e sempre mutável, como a vida e a ação do tempo na natureza. São também conhecidos como pré-Socráticos, e seu principal pensador era Demócrito, para quem o que denominou como átomo, partículas que se agregavam para formar o mundo efêmero e sensível aos nossos sentidos, que se desagregavam mas eram eternas em sua forma única. Sua concepção, conhecida como teoria atômica, uniu as duas correntes de pensamento contrárias em sua época, já discursadas acima.

Após o desenvolvimento de tais teorias sobre a natureza do mundo, começaram a aparecer filósofos que se concentraram em descobrir a natureza do homem, sua relação com o mundo e a melhor forma de bem viver com este e consigo próprio, dando origem ao pensamento ético e moral baseado na razão, primórdio para uma feliz e reta vida. Com o aparecimento do primeiro grande filósofo grego, mundialmente reconhecido, Sócrates, há um divisor de águas entre os filósofos até então. Sócrates preocupou-se em descobrir e depois ensinar as pessoas que o verdadeiro conhecimento vem de dentro e só este pode lhe fornecer o discernimento necessário para a vida, sendo este só possível através do emprega da maior faculdade do Homem: sua razão. A razão era a medida das coisas e não a sociedade, como diziam certos contemporâneos de sua época, conhecidos como sofistas, que desenvolviam a arte da retórica e cobravam por seus préstimos a humanidade, principalmente a classe dominante grega. Embora seu fim tenha sido trágico, ao ser obrigado a cometer suicídio tomando um veneno chamado cicuta, deixou muito de sua filosofia, retratada por seu principal aluno, Platão.

Platão foi o responsável pelo registro do pensamento socrático, realizado através de seus diálogos, preservando a retórica na escrita. Suas principais preocupações giravam em torno daquilo que seria eterno e imutável, a origem de todas as coisas que vemos e como podemos defini-las quando as observamos. Sabemos como é um cavalo, conhecemos sua forma, pois segundo sua filosofia, há uma forma pré-concebida no mundo das idéias, uma forma ideal e perfeita, imutável e divina, já que na natureza tudo flui, nada é perfeito e imutável no mundo dos sentidos. Procurava o que era eternamente bom, eternamente belo e eternamente verdadeiro. Em relação ao homem, tal concepção do mundo garantia-lhe a existência de uma alma que transmigrava para seu corpo e, quando da morte deste, retornava ao mundo das idéias.

Sua busca pela forma perfeita também o levou a desenvolver uma teoria e subsequente forma ideal de governo, descrita em seu livro "A República", onde, entre várias coisas, definia a maneira correta do bom governar e desenvolvia seus raciocínio em relação a participação ativa da mulher na sociedade. Desagradado em relação a não compreensão de seus ensinamentos conclui mais uma obra "As Leis" onde descrevia uma segunda melhor forma de governo, adaptada a cultura social preponderante na época. 

Da academia de Platão surgiu o terceiro e último grande filósofo da antigüidade: Aristóteles. De pensamento analítico e formação científica, este macedônio desenvolveu uma teoria contrária a de seu predecessor e mestre. Segundo ele, tudo possuía forma e substância, sendo a primeira relacionada ao espécime masculino e a segunda ao feminino, originado-se deste pensamento sua reprovação em relação a capacidade real da mulher na sociedade e em relação ao mundo das idéias de seu mestre: pois não podemos ter uma forma pré-definida de um cavalo se não conhecemos nenhum ainda. Grande cientista, pesquisador de várias áreas do saber, não só o da filosofia, foi um dos fundadores da pesquisa empírica e da noção de classificação natural de espécie, sendo seus moldes a base do desenvolvimento e separação das ciências como as conhecemos ainda hoje.

Aristóteles também desenvolveu algo de peculiar em seu raciocínio filosófico em relação a causa primeira das coisas: segundo ele, tudo que acontecia na natureza tinha uma dada finalidade, um propósito de ser e acontecer, para houvesse a manutenção da vida e o equilíbrio no mundo.

Já na época de Aristóteles o império grego começara a se desfazer ante o avanço do império macedônio de Alexandre Magno. Através de suas conquistas, este conseguiu unir culturalmente a Europa, o Egito e a Ásia Menor, quebrando as fronteiras e dando origem a uma era de grande desenvolvimento cultural e do saber, através da experiência adquirida de vários povos reunidos no polo cultural e científico da cidade de Alexandria, onde a filosofia grega e sua língua tiveram papel preponderante, a chamada era do Helenismo. Filosoficamente, várias ramificações do pensamento socrático e platônico ocuparam seu devido espaço na procura de uma concepção humana de vida.

Dentre essas correntes destaca-se o Neoplatonismo, desenvolvido nesta época e aclamado por Plotino, que viria a ser um grande rival do nascente cristianismo. Pregava uma filosofia da libertação onde dizia que um dualismo exercido pela força da luz de Deus e pelas regiões ou locais ou coisas a que esta não alcançava, a ausência de total de luz. A matéria era as trevas, e o Homem era formado por esta e também pela essência divina, sua alma, centelha do eterno e imutável ser.

Outra corrente importante na época foi o misticismo. Diferentemente do desenvolvimento ocidental, esta prática oriental visava colocar o homem em contato, através da auto-observação, consigo mesmo e dessa forma com o todo, com o absoluto, com o que muitos chamam de Deus. Nesta busca perde-se a si mesmo mas encontra-se algo muito maior, que é a própria essência de tudo o que existe.

Havia, já no período do Império Romano, que sucedeu o macedônio, dois círculos culturais distintos, o indo-europeu e o semita. O primeiro possuía uma forma de pensamento fluido, como sendo a história uma grande espiral, onde esta de desenvolvia de forma cíclica, e tinha como principais filosofias ou religiões o hinduismo, o budismo e a própria filosofia grega. Já o círculo cultural semita, deu origem as grandes religiões ocidentais: o islamismo, o judaísmo e o cristianismo. Possui uma visão contínua da história, como se esta fosse uma linha que possui começo e fim definidos. Outra grande distinção entre essas duas grandes correntes é o fato de que a primeira é politeísta e a segunda monoteísta.

Nesta situação de encontro entre tais correntes aparece aquele que foi profetizado pelo povo israelita, o filho de Deus, Jesus de Nazaré. Por sua filosofia também foi morto, como Sócrates. Ensinava que Deus é extremamente misericordioso e para alcançarmos sua graça devemos elevar nossas preces, pois de nós deve partir o desejo pela salvação. Também pregava amor e perdão incondicionais, conceitos avançados demais para a época e que feriam intenções de poderosos, sendo sacrificado por isto.

Após sua morte e notícias de sua ressurreição, o apóstolo Paulo disseminou sua filosofia e as revelações bíblicas, formando, em pouco tempo, comunidades cristãs por toda a Europa. Tais comunidades viriam a se disseminar e desenvolver o poderio da Igreja Católica, nos tempos de regressão ao feudalismo na Idade Média. Em parte esta forma econômica foi a responsável pela manutenção da estrutura católica, e se desenvolveu graças a desertificação das grandes metrópoles antigas, como Roma. Dessa forma a economia até então existente deu lugar a camponesa, regredindo a um estágio de escambo e produto in natura.

Nesse período histórico conturbado e evolutivamente estagnado a Igreja Católica firmou seu poderio moral-ético-religioso. Agora esta instituição detinha os meios de informação, atividade intelectual desempenhada pelos copistas, assim nomeados devido ao fato de serem os guardiães e mantenedores do conhecimento velado. Desta doutrina, portanto, surgiram os principais filósofos da Idade Média. Esta filosofia católica foi uma forma de unir a base indo-européia grega, de Platão e Aristóteles, a teologia do Velho e Novo Testamento. O primeiro a conseguir eficiência em sua tarefa foi santo Agostinho. Este monge procurou conciliar a teologia cristã ao neoplatonismo. Segundo Agostinho, a criação veio a partir do nada mas as idéias já existiam pré-concebidas na cabeça do criador - portanto análogo a teoria platoniana (este afirmava que o mundo das idéias sempre existiu, mas não que veio do nada absoluto). Entretanto, para seguir tal conciliação também aplicou a sua filosofia certo apego ao destino, a dualidade do ser humano e foi o primeiro a colocar a história - uma característica linear do semitismo - em seu trabalho.

Outro importante filósofo foi Tomás de Aquino, responsável pela conciliação das teorias de Aristóteles com os ensinamentos e cultura bíblicas. Ele consegui criar um elo entre a razão e a fé, postulando a existência de dois tipos de verdade: a verdade teológica, reconhecida e compreendida somente através da fé, e a verdade teológica natural, referente à razão humana e aos desígnios da natureza, sendo estes conhecimentos também referentes a moral humana e não só a revelação dos desígnios de Deus. 

Logo após a morte de São Tomás de Aquino a estrutura eclesiástica começa a ruir. O ideal burguês passa a desempenhar o papel de libertador das estruturas até então impostas pela Igreja. Um novo movimento mundial começa a emergir, com a quebra do feudalismo e o aparecimento da moeda: o Renascimento. 

O Renascimento foi a realização de uma retomada do humanismo grego, sendo entretanto uma de suas principais características o individualismo. Isso ocorreu devido a mudança da concepção da natureza da vida humana e a própria visão deste do mundo e de si mesmo: começou-se a medir o mundo através dos conhecimentos e da experiência real do ser. O Homem deve ser feliz neste planeta, ver de forma diferente o mundo físico e não somente viver para pleitear uma vida no céu. Abriram-se milhares de janelas, tanto para a forma de viver quanto para o desenvolvimento científico. O Homem não existe somente para servir a Deus, mas também a ele próprio. O racionalismo imperou e começou a se formar um método empírico de observação do mundo natural e vários cientistas destacaram-se como Galileu e Copérnico. 

A partir desta nova visão de mundo pouco tempo depois surgiram teorias e formas de se viver opostas irreconciliáveis. O século XVII é conhecido período Barroco, pois as formas não são mais suaves e sim opulentas e agressivas, cheias de contrastes, o que exteriorizava as tensões do consciente mundial da época. O materialismo de Thomas Hobbes, idêntico a filosofia de Demócrito, contrapunha-se ao idealismo, que visava o desenvolvimento anímico e espiritual do ser. O materialismo contribuiu para o desenvolvimento do que é conhecida como visão mecanicista do mundo. Muitos foram os colaboradores deste sistema de pensamento, evidenciado pelas descobertas científicas de Newton, entre outros.

Em virtude destes acontecimentos nasce René Descartes, responsável pela reunião do pensamento contemporâneo num único e coerente sistema filosófico. Todos buscavam um método concatenado de experimentação científica e filosófica. Havia uma ordenação das idéias não existente na filosofia grega, não era somente genérico e sim pragmático e racionalista. Dentre as várias teorias desenvolvidas deve-se destacar além de Descartes, Spinoza, segundo o qual "...Deus não é um manipulador de fantoches...". Spinoza compreendia que a dualidade das coisas, que segundo ele tudo ou era pensamento ou extensão, provinham de uma única fonte, diferentemente da corrente dualista que se mostrava na época.

Passado a grande revolução da Renascença e o conturbado Barroco, deu-se a necessidade de se organizar todo este conhecimento, surgindo deste ideal a Enciclopédia, onde os maiores pensadores de seu tempo depunham sua experiência e seus preceitos sociais, morais e científicos. 

Muitas características marcaram esse novo movimento mundial. A revolta contra as autoridades, devido ao despotismo dos soberanos e a busca da liberdade de livre pensar e fazer, inerente ao pensamento burguês - era o rompimento com o conhecimento herdado. O alto racionalismo provinha de uma fé inabalável na razão humana, como as dos filósofos gregos. Os auto-intitulados iluministas procuravam criar uma base sólida para a moral, a ética e a religião humana, para que estas estivessem em sintonia com a razão imutável do próprio ser.

O otimismo cultural era reinante nesta época, pois todos acreditavam que seria uma questão de tempo para que a irracionalidade não mais desempenha-se uma força tão vital em relação ao Homem, ao mesmo tempo que buscavam um religião natural - esta religião estaria em contato com a estrutura natural do ser. Com o aparecimento de tais características e intenções, pouco depois esta nata social começou a elaborar os direitos humanos. Vários pensadores podem aqui serem destacados, muitos inclusive conhecidos do grande público com Voltaire, Montesquieau, Rousseau, etc.

A última grande época de desenvolvimento humano, que veio logo após o Iluminismo, foi o Romantismo, já que depois apareceram novas teorias e concepções de mundo em campos distintos do conhecimento: Marx na economia, Darwin na biologia, Freud na psicologia et coetera. Surgiam novas palavras de ordem como sentimento e imaginação, e um anseio pelo que está longe e inatingível. Buscava-se estão não mais a razão como veículo do saber e da verdadeira experiência mas sim a arte, sendo muitos artistas considerados como deuses. Esse sentimento aflorado trouxe a noção de unidade aquilo que os iluministas, como Kant e Descartes, viam só de forma mecânica. O planeta era considerado como um enorme e único organismo vivo, onde tudo e todos estavam interligados de alguma forma. 

Dentre os filósofos românticos o de maior destaque foi Hegel. Contribui para a concepção de que existem verdades maiores que a razão humana e a filosofia, portanto, não poderia ser desvinculada da época a qual se desenvolveu, tendo então todo pensamento um contexto histórico. Desenvolveu a teoria de tese, antítese e síntese, provando sua teoria do dinamismo da razão humana. 

Em contraposição ao conhecimento Hegeliano surgiu na Europa um indivíduo que contrapunha suas teorias com a idealização da sociedade sendo movida através do desenvolvimento econômico da mesma, onde o nível dos bens materiais que influenciariam o ser, acarretando, posteriormente, seu nível de desenvolvimento espiritual. Há uma inversão da balança proposta por Karl Marx. 

As condições econômicas, sociais e materiais de uma sociedade seriam a base da mesma, o que Marx chamou de superestrutura. Dentro desta as condições naturais, as forças e as relações de produção eram as responsáveis pelo desempenho evolutivo de determinada sociedade.

No mesmo tempo em que de desenvolvia o pensamento de Marx, crescia na Europa uma corrente científica conhecida com Naturalismo, tendo como seu principal representante a figura de Charles Darwin. Darwin propôs a teoria da Evolução das Espécies. Essa evolução dar-se-ia através da seleção natural: entende-se por isso um processo biológico no qual as criaturas mais capacitadas para a vida tendem a ocupar o espaço daquelas que vão se tornado inaptas com o passar das eras. Esta concepção põe em choque a filosofia platônica, segundo a qual existiriam formas imutáveis na natureza, e o próprio conceito bíblico da criação do homem e da vida no planeta.

Cerca de meio século depois surge na Alemanha outro grande pesquisador, Freud, embora seu campo fosse bem outro: a própria estrutura do pensamento humano. Sua teoria psicanalítica veio lançar novas bases ao raciocínio humano e conhecimento deste sobre si mesmo. A psicanálise busca fundamentar as atitudes, anseios e repressões do ser em seu próprio passado, sendo então o Homem o depositário de suas próprias respostas na busca da felicidade e do fim do sentimento de culpa. 

Freud deu a psique humana três estruturas básicas: o ID, ou desejo egoísta e instintivo, o SUPEREGO, ou o grande castrador da sociedade, e o EGO, que faz a ligação entre estes dois aspectos da personalidade humana. Da boa interação destes três teremos as respostas as perguntas que nos assolam individualmente. Também três são as fases de desenvolvimento do ser humano: anal, fálica e oral, estando estas ligadas a forma de aprendizado e relação com o mundo exterior.

Por fim, destacamos como última grande teoria mundial a do Big Bang. Através desta os astrônomos explicam que a atual expansão do universo deveu-se a uma grande explosão ocorrida em seu centro. Desta suposição concluía-se que: ou o universo continuaria a se expandir indefinidamente ou entraria em um processo de contração, tudo dependendo da quantidade de matéria existente no mesmo, não se tendo noção desta ainda. 

Esta teoria estava até a pouco em conflito com duas outras, que também pretendiam explicar a formação de nosso universo. A teoria do Universo Estacionário, defendia a hipótese do mesmo sempre ter sido e que sempre seria/teria a forma de hoje, e o Big Bang Expansivo: o universo está em eterno movimento de expansão. Prova-se a falha de ambas através da freqüência conhecida como radiação cósmica de fundo. Essa energia é empregada para medir o distanciamento das galáxias, entre outras coisas, devido a sua linearidade. Percebeu-se que, depois de um grande movimento de expansão, o universo começa a se retrair. 

Mas, correlacionando-se tais dados com a eterna pergunta "de onde nós viemos?", pode-se fazer um paralelo com as teorias mais antigas, do dia e noite de Bhrama no hinduísmo, ou o faça-se a luz da Bíblia, ou a explosão do centro do universo, no Big Bang? As idéias humanas giram ciclicamente em torno das mesmas perguntas, mas as respostas, com o passar das eras, são cada vez mais sutis, análogas e abrangentes. 


Autor: Jostein Gaarden


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