Caminho pela margem deste rio, que corre á borda do mundo e o mundo á beirinha do Universo. O caminho que piso á vida, contudo, o que a minha vista alcança é imagem de desolação.
Contemplo dentro de mim próprio e o que vejo é nada. Estou cego nesta luta. Quero libertar o prisioneiro que há aqui e de cujas as cadeias, só eu retenho a chave. Sofrimento atroz indescritível, o ter asas e não voar.
Sim, quero voar em direcção nenhuma e chegar a todos os lugares, mas quero principalmente, e em voo picado, mergulhar. Nadar na minha essência pura e cristalina e da qual fui feito e que nada tem a ver com aquilo que pensam que sou.
Não tenho a capacidade de me expressar, por isso mesmo, não escolho as palavras pelo que são, mas usa-as sim, para carregadas de tudo isto que vos quero dizer e que não sou capaz, as interiorizem profundamente. porque esta não é uma mensagem que tenha brotado do meu pensamento ou mesmo do meu coração. Vem das minhas profundezas e como tal, perde-se na lonjura dos tempos e eu mesmo sou do Tempo, uma encarnada e pequeníssima parte.
Deixo a minha flutuar e andar por ai ao acaso. Revisitando o passado, observando o presente e olhando o futuro.
- Será que existe mesmo esta medição do tempo? Ou não será tudo um É permanente?
Silêncio. Meditação. Pequenas lágrimas celestiais caem neste meu mar.
Gotículas prenhes de alegria ou tristeza - não importa...
- Não importa !
Pequenos e puros pedacinhos de cristal líquido, carregados de felicidade ou de dor, têm sido a água de uma vida que por aqui passa. A minha alma tem bebido dessa água; ora suave e delicadamente, ora em grandes e sôfregos tragos. E no entanto esta sede permanente, como se ao longo de todo este tempo só houvessem deslizado rios de metal encandescente.
Eis que e como num suave borbulhar que atinge a superfície espelhada da água, brota do meu mais eu o tilintar das campainhas. Som cristalino, límpido e puro, que vagueia ao acaso dentro de mim. Melodia passeando em azul eléctrico, transportando todas as sonoridades do mundo. Misto de címbalos, flautas, adufes e tamborins. Sons que provém da minha própria criação, tão antiga como o mundo. Imagens de dançarinos de torso nu, revolteando-se á volta de fogueiras acesas, em planaltos da memória. Mulheres de sedas diáfanas, bailando suavemente, irradiando reflexos de luz misteriosa e em gestos mágicos. E nas horas de quietude, na paisagem mais linda da montanha, uma fada que é pastora, toca na sua flauta uma ária de encantar tão doce e suavemente que o próprio Tempo pára para escutar.
Na brisa da manhã, juntamente com as pérolas do orvalho, vem o apelo, mudo, silencioso. Com tanto ímpeto que se torna um grito rasgando as brumas e dando vida ao sol. Vibro inteiramente, a mais pequeníssima parte de mim, em movimento incessante e perpétuo, como colibri quando beija a flor. Cada uma das minhas células, é percorrida por um frémito tão intenso que por vezes me agonia. Tal como alguém, quando se recusa a ter o orgasmo e prolonga o transe o mais que pode, até que em miríades de estrelas, literalmente, explode. Nesse momento sentimos como que uma rajada de vento que entra bruscamente em nós e ficamos a pairar entre o princípio e o fim, entre o tudo e o nada.
O encanto permanente das palavras, ditas sem ordem ou conexão; só pelo prazer de as ouvir. Os sons materializados, nascidos na gestação da grande noite, destinados a romper as trevas. Maçãs de oiro em salvas de prata. Jardins de cristal, encrustados em alvo e puríssimo mármore. Brocados, sedas e cetins, espalhados em profusão sobre corpos ávidos de carícias. Diamantes, rubis vermelho-sangue, topázios, esmeraldas e pérolas com os segredos do mar. Pedras preciosas incrustadas em seios de leite ou descansando, abandonadamente, em colos moremos e brilhantes de azeviche... a suavíssima textura do ébano, cravejado de coloridos, carnudos e sumarentos frutos tropicais.
Lá longe, muito longe. o rufar baixo e profundo de tambores. O som inaudível que penetra e fala, transportando-nos para espaços intemporais. Cintilam no nosso céu interior, estrelas brilhantes. E há também as estrelas caídas do céu e exiladas vivas na Terra - os pirilampos.
Eis que o som se mistura com o brilho da prata-doirada. Explosão de cores e contudo, um arco-íris que de oeste para este, cruza o mundo.
- Em qual das suas extremidades, estará o pote de oiro?
Gaivotas em terra, sinal de tempestade no mar. Mas neste imenso azul líquido há tanta paz. Ilhas perdidas na sua profundeza de abismos insondáveis e para os quais se resvala docemente. Como um deslizar feito em câmara lenta. A atração dos grandes abismos nunca deixou de estar presente em cada um de nós - pelo mistério do desconhecido. Não é pois o medo do que não sabemos, que nos move e faz fugir - não. É o receio de nós próprios, de nos desconhecermos, que leva a que e num impulso, saltemos todas as fronteiras e fujamos para casa em busca de uma segurança que nunca existiu. Mas se houver sabedoria, é então um regresso jubiloso à moradia da qual e em um dia há muito distante, partimos.
O que ama a palavra, é aquele que a vê em tudo e por ela e dela vive.
A palavra escrita é o desenho estilizados de sons, que sobem em direcção ao céu e se propagam no ar. O céu é o lar de todas as palavras e é daí que elas, caindo como chuva, tombam sobre a terra, alimentando a própria vida, com o seu poder de gerar o concreto e a fantasia.
Autor: Manuel Tomé |