Apetece-me escrever, escrever, escrever... Escrever desenfreadamente, encher todas as páginas dos meus cadernos, as folhas da minha vida, as paredes do meu mundo. Pegar em tinta preta e escrever palavras ao acaso, riscando a monotonia, a rotina, o medo... Escrever a nossa história. Começar na palma da mão, com uma simples palavra: NÓS. E percorrer o teu corpo de palavras, de gestos, de sentimentos. Transformar o teu corpo num fabuloso livro de vida. E então recordar, reviver os momentos marcantes, passar por cima dos maus. E então continuar, de palavras em palavra, de vida em vida. Deixar o teu corpo bruscamente, impor o MEU ritmo... a MINHA voz... a MINHA palavra... o MEU eu... Encosto o meu corpo na parede fria, sinto as suas vibrações, oiço o silêncio da sua voz que me pede uma história, uma palavra. Paro um segundo, olho para ti, exausto a um canto, com o corpo coberto de memórias e isso dá-se forças. Ergo a mão e escrevo sem parar, num rasgo de loucura, de insanidade... escrevo... escrevo... escrevo... A parede está cheia... Olho em redor e tudo está minado de palavras. Um passo em falso, um gesto mal medido, é o sufuciente para fazer detonar tudo aquilo que escondemos por medo, por insegurança, por vergonha. Mas as palavras estão lá, poderosas, verdadeiras, dolorosas. Impossível apagá-las, rasgá-las, queimá-las: são intemporais, eternas. Poderia apagá-las da parede, mas continuariam a gritar dentro de mim, dentro de ti, relembrando-nos a escuridão, remetendo-nos para a claridade. Estou tão cansado... Abraço-te em busca de silêncio, de paz. As palavras adormeceram, nada mais se ouve. Abraça-me com força.
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