É triste ver-se o homem por dentro: tudo arruinado, cerrado, dobrado como objetos num armário.
A alma, não.
É triste ver-se o mapa das veias, e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios como por obscuras aldeias indo e vindo, a carregar a vida, estranhos escravos.
Mas a alma? É triste ver-se a elétrica floresta dos nervos: para estrelas de olhos e lágrimas, para a inquieta brisa da voz, para esses ninhos contorcidos do pensamento.
E a alma?
É triste ver-se que de repente se imobiliza esse sistema de enigmas, de inexplicado exercício, antes de termos encontrado a alma.
Pela alma choramos. Procuramos a alma. Queríamos a alma.
Autora: Cecília Meireles |