Mulher-Camaleão


Fazia muito tempo que eu não ouvia falar de suas peripécias. Até aquela noite de Sábado, em que nos reunimos na casa da sua irmã Mariza. Desde criança, Regina sempre fora assim: envolvente, encantadora, louca para ganhar o mundo. A mais velha e a mais bonita da nossa turma em Santana, bairro paulistano em que morávamos, ela sempre usou seu poder de sedução para conquistar as pessoas. Todos os rapazes suspiravam pôr ela e nem notavam que nós, as pirralhas, existíamos.

Um dia, Regina chegou toda prosa com uma mobilete, a super novidade de então. "Ganhei de um amigo", explicou com candura, naquele sotaque carioca que a distinguia. Levou a maior bronca do pai, que a fez dar meia volta e devolver o "presente". Sabe-se lá que história contou aos amigos. Mentiras? Não, senhora.. Regina inventava verdades. E vivia-as tão intensamente que ninguém duvidava delas.

A melhor eu soube naquele Sábado. Em certo feriado de verão, Regina conheceu, numa viagem , uma turma do Rio de Janeiro, cidade de sua infância, onde voltara a morar. Notou, de cara, o interesse de um rapaz. Ao saber que ele estudava Agronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nem pestanejou: "Que coincidência! Faço Medicina lá", inventou.

E assim foram meses na UFRJ. Regina assistia às aulas, fazia trabalhos e tudo o mais. Um dia, a bomba estourou na porta do apartamento da Mariza, em São Paulo. O casal chegou anunciando que fugira do Rio para evitar que Regina fosse presa. A falsa médica fora desmascarada pelo acaso. Alguém resolveu averiguar nos registros da faculdade o número de matrícula da estudante, que passou a dar expediente num posto de saúde da universidade. "Até atestado de óbito ela assinou", contava o rapaz , inconformado com a desilusão amorosa. 

Anos depois, de volta ao Rio de Janeiro, ela jurou à tia que sua vocação era ser freira. Foram juntas à entrevista com a madre superiora, mas a tia se recusou a talhar o hábito no tergal que Regina comprara para este fim. A negativa não abalou. Sumiu por duas semanas e reapareceu vestida de freira, cigarro entre os dedos resignada com a incompatibilidade com o monastério: "trabalhava-se demais no convento".

Trabalho aliás, não era com ela. Seu ritmo de vida era ditado pelas paixões. Por elas mudou de cidade, de país. Com o primeiro marido foi para a Argentina. Três filhos depois, já se sentia sufocada por aquela vidinha sem graça. Então, convenceu outro apaixonado a abrir uma pousada em Porto Seguro, na Bahia. Apresentou-o à irmã em São Paulo, pediu segredo a ela sobre os filhos que tinha deixado para trás e sobre o vírus as Aids, que dizia ter adquirido. Como fazia conosco, envolveu-o nas histórias fantásticas que criava. Contou-lhe que os tios, cariocas, eram donos de um suntuoso hotel em Niterói e que havia sido muito rica. Até a morte dos pais glamourizou: "Eles estavam no mesmo avião que a Leila Diniz".

Naquela noite de Sábado rimos muito das peripécias de Regina. Fazia, então cinco dias que tinha morrido. De Aids, a verdade que nenhum de nós queria para ela.


Depoimento de D.M.R.D., jornalista


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