Aos 25 anos conheci um rapaz extrovertido que gostava de tocar violão e sair com os amigos. Era tudo de que eu precisava na minha busca por um sentido na vida, agravada por um câncer de colo de útero recentemente domado. Do nosso envolvimento resultou uma gravidez, possibilidade remota no meu caso, já que a extração do tumor debilitara meu aparelho reprodutor. Meu médico mal pôde acreditar. Nem eu, que desejava um filho havia muito tempo.
Como o bom rapaz não queria ouvir falar em responsabilidade e insistia no aborto, nos afastamos aos poucos. Apesar da depressão que esse desencanto me causou, nunca pensei em não ter meu filho. Afinal, era independente financeiramente e tinha o apoio da minha mãe e dos meus irmãos.
Uma noite, ao sair com o pai do meu filho da escola em que eu lecionava, fomos assaltados. Armado, o ladrão nos rendeu num semáforo, exigiu que meu ex-namorado saísse do carro e me mandou passar para a direção. Até hoje imagino se poderia ter fugido, arrancado em alta velocidade; essa dúvida da chance desperdiçada ainda me angustia.
Fiquei 2 horas à mercê daquele homem dopado e fétido. Ele me esmurrou no rosto, na barriga, indiferente aos meus apelos de que poupasse uma gravidez de 3 meses. Tive os bicos dos seios quase arrancados pelas mordidas daquele animal, que mantinha a arma engatilhada contra minha cabeça enquanto me estuprava. Fui obrigada a fazer coisas inomináveis, mas continuei implorando pela vida. Depois de cansar de atrocidades, ele me jogou fora do carro aos pontapés, ameaçando voltar para me matar.
Rolei ensanguentada, ladeira abaixo. Quando consegui me levantar, percebi que das janelas muitas pessoas ( inclusive alunos meus) assistiam àquele horror sem sequer telefonar para a delegacia. Gritei desesperadamente até que um senhor e seu filho me acudiram. colocaram compressas de gelo no meu rosto e nos meus seios, que não paravam de sangrar. Chamaram a policia e o zelador da escola e me levaram ao hospital. Lá meu medico me aguardava com um silencio profundo e lagrimas que caíam quentes sobre meu ventre esmagado. Em transe, eu não chorava.
A equipe que me atendeu sugeriu carinhosamente o aborto. As vozes se confundiram, eu nada queria ouvir ou entender. Fui informada sobre os riscos de o feto ter sofrido danos e deficiências irreversíveis, mas minha decisão estava tomada. Eu queria exatamente aquele ser que já conhecia - não podia apenas visualizar seu rosto. assinei o termo de compromisso assumindo qualquer responsabilidade sobre eventuais complicações decorrentes do estupro e fui para casa.
Nunca mais passei por aquela rua, nem para agradecer àqueles homens de ouro que me socorreram. meu filho está com 15 anos, tem 1,90m de altura, é um garoto sadio, lindo, inteligente e responsável. Cursa a segunda série do Segundo grau de uma escola conceituada e não apresenta nenhuma sequela da violência que sofremos e da qual ficou sabendo pelas conversas francas que nunca deixamos de ter
Depoimento de L.S.S, 42 anos, psicóloga e professora em São Paulo. |