Difícil Gesto De Perdão


"Ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim. tornar-se-ão como a lá." (Isaías 1.18).

Numa pequena cidade francesa, costumava permanecer esmolando, a entrada do templo, um grupo de pedintes. A hora das atividades religiosas, todos entravam, menos o Leôncio. Contudo, o oficiante gostava muito dele. Era humilde, submisso e resignado. Certo dia, ele não apareceu para esmolar e sua falta foi sentida. Outros dias se passaram e, preocupado com a sua ausência, o guia religioso decidiu procura-lo. Depois de muito indagar, o encontrou num quarto úmido e sombrio. Ao entrar para ajuda-lo, muita coisa chamou a sua atenção. Na parede suja e escura estava um relógio de ouro antigo e valiosíssimo; protegido por uma velha cortina estavam alguns retratos, cujas molduras revelavam extremado bom gosto e um diva revestido de um tecido damascado raro revelava grande valor.

Leôncio percebeu o olhar surpreso e indagador do religioso e então contou-lhe a sua historia: Muito pobre, fora levado para servir no castelo de um fidalgo. Ainda que revoltado, ele procurou servi-lo bem, chegando a ser seu secretario. Com isso tornou-se conhecedor profundo das suas transações comerciais e industriais. Motivos políticos e sociais levaram a região a revolta, com muita gente envolvida. Aquele fidalgo decidiu fugir com a família para outra região da Franca, por ter culpa em cartório. Ninguém sabia o rumo que tomara. Fora então procurado pelas autoridades que lhe ofereceram alta soma para que revelasse o esconderijo. Fascinado pelo ouro, Leôncio fez a revelação e o fidalgo e sua família foram capturados e condenados. Contudo, teriam escapado a morte se ele não houvesse feito revelações comprometedoras. Depois da sentença de morte, o tempo foi passando e teria caducado se não houvesse pedido pessoalmente a revisão da sentença...

- Assim, sinto-me hoje o mais indigno pecador. Por isso tenho me torturado. mantendo em meu poder esses objetos que representam o preço da minha traição - falou ainda Leôncio.

- Bem mas para Deus não ha pecado que não mereça perdão. Busque-o enquanto e tempo - replicou o religioso.

- Não posso crer no perdão para quem premeditadamente fez passar pela guilhotina um casal com duas lindas filhas... só o caçula foi poupado. Veja ai sobre a mesinha a foto daquela família.

- Estes são os meus pais... Você os levou a morte - falou o religioso.

- Sim. Eu sou culpado. E agora? Ainda acha que Deus me perdoara? E você?

Resignado e compassivo, o religioso respondeu:

- Se pode crer no perdão de Deus, creia que jamais lhe negarei o meu.


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